O mundo como conhecemos hoje é fruto direto de duas grandes construções humanas: ciência e capitalismo. Enquanto o ensino tradicional de história tenta nos mostrar que aquilo que temos hoje é apenas a evolução de antigos mercados e das tentativas de entender os desígnios da natureza, na verdade esses dois grandes edifícios da história da humanidade tiveram um começo e são frutos do entrecruzamento de uma série de fatores, podendo simplesmente não terem ocorrido.

Toda datação de um fenômeno histórico complexo é imprecisa, mas, neste caso, podemos dizer com relativa segurança que o mundo contemporâneo começou a nascer por volta do século XIII. Dada a crise do século seguinte (por conta da “peste”) e o aparente hiato daí decorrente, parece-nos que o Renascimento veio do nada. Mas, defendo a idéia de que os processos históricos que deram origem ao nosso mundo já estavam em movimento mais de 300 anos antes de Descartes nascer, por exemplo.

Foi no século XIII que a centralidade das sociedades em torno do Mediterrâneo se deslocou do leste para o oeste, permitindo à Europa ocupar um papel que não desempenhava há séculos. Um dos motivos evidentes foi a ascensão de Gengis Khan. A breve vitória mongol teve desdobramentos que literalmente mudaram o mundo. A lenta agonia dos Abássidas chegou ao fim, encerrando talvez o mais brilhante período da história muçulmana. O único califado agora ficava em Córdoba, dentro de território europeu, permitindo que seu conhecimento fluísse mais facilmente para centros como Paris e Londres. E ir do leste europeu até a China pela primeira vez se tornava uma viagem dentro de um mesmo e gigantesco império, tornando o processo mais seguro e menos custoso e intensificando as trocas comerciais entre leste e oeste. Como nos comprovam, aliás, as histórias de Nicolau, Maffeo e Marco, os Polo.

Mas, o ocidente também passava por intensas transformações.

A vitória de Oto I sobre os húngaros e a fixação dos “homens do norte” na atual Normandia podem ser encaradas como marcos do fim das chamadas “invasões bárbaras”. Foi também entre os séculos XI e XIII que as Cruzadas produziram uma intensificação do comércio com o oriente e a descoberta de novos gostos, caros e “exóticos”, por parte da nobreza européia. Com isso, a Europa viveu, já a partir do século XI, um reflorescimento do comércio e o consequente crescimento das cidades. Vale lembrar da Liga Hanseática e da Feira de Champagne, por exemplo. Esse comércio de longa distância demandou a sofisticação das práticas negociais. Foi o século XIII que viu nascer as letras de câmbio e quando a palavra “banco” começou a adquirir o sentido que lhe damos hoje.

E ainda, o desenvolvimento de novas técnicas agrícolas, como a charrua de ferro, permitiu explorar terras até então tomadas por florestas ou charcos. Assim, aumentava a produção agrícola e a população.

Dentro do mundo da Igreja, o surgimento de ordens como a dos Dominicanos e Franciscanos favoreceu a crítica à contemplação e ao retiro do mundo, pregados até então pelos cistercenses. Ao invés de se retirar, os novos mendicantes queriam estar no mundo.

Nas ilhas britânicas, a lenda de Robin Hood faz antever o surgimento dos yeomen, os homens livres, que foram o prenúncio da burguesia. Seu substrato ideológico estava plasmado na Magna Carta (1215), quando se introduziu na história a ideia de que os indivíduos têm direitos e que o poder do governante não deve ser absoluto.

Um século antes, a Europa presenciara a criação de instâncias fora das catedrais e dos mosteiros onde era possível copiar e estudar livros e não apenas a sagrada escritura ou hagiografias. Nasciam as universidades, uma inovação perante as madrassas muçulmanas e loci fundamental para aquilo que chamamos de ciência.

Foi na Universidade de Paris, por exemplo, que em 1277, através de suas famosas condenações, o Bispo Étienne Tempier demonstrou o “perigo” que o averroismo latino (a interpretação ocidental dos escritos de Ibn Ruchd sobre Aristóteles) representava para a ordem do mundo estabelecida pelo neoplatonismo cristão. Com Aristóteles, o conhecimento deixava de ser transcendente para ser imanente. Estava “nas coisas” e podia ser pesquisado. Não era o que chamamos de ciência, mas abriu a porta para que, em Oxford, o franciscano Roger Bacon defendesse o primado do experimentalismo diante da contemplação. Enquanto Guilherme de Ockham, com seu nominalismo, produzia a mais severa crítica ao universalismo neoplatônico. Mas, foi Siger de Brabante, com a defesa de “duas verdades” (uma da fé e outra da razão), quem melhor antecipou a modernidade.

Enquanto isso, na Itália, Fibonacci publicava seu Liber Abaci, dando conhecimento ao ocidente dos números hindu-arábicos. A revolução da contabilidade e do mundo dos negócios que esta simples troca permitiu pode ser bem compreendida pela leitura do interessantíssimo “A mensuração da realidade: a quantificção e a sociedade ocidental, 1250 – 1600”, de Alfred Crosby, publicado pela Editora da Unesp.

Enfim, este entrecruzamento de fatores culturais, religiosos, sociais e econômicos, nascente no século XIII, gerou o terreno fértil para que estes gêmeos (ciência e capitalismo) mudassem o mundo para sempre.

(Talvez por isso, o socialismo, ao fazer a crítica de apenas um dos gêmeos, ao mesmo tempo em que busca ser o mais dileto herdeiro de outro, ainda não tenha conseguido produzir a necessária superação dos impasses civilizatórios que vivemos.)