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Outro dia assisti a um vídeo no Youtube onde a militante feminista recomendava que homens não deveriam sorrir ou muito menos tentar uma aproximação com qualquer mulher na rua, pois isso seria uma forma de assédio sexual. Na mesma época, li no Facebook uma denúncia de que os tradicionais dois beijinhos (em alguns lugares um) na bochecha, como forma de cumprimento, poderiam, dependendo das circunstâncias, ser também uma forma de assédio sexual. Agora, leio o infeliz texto da Danusa Leão dizendo que toda mulher deveria ser assediada umas três vezes por semana.

Essas formas tão extremas do uso da palavra assédio me levam a pensar que seu emprego em demasia talvez tenha feito a palavra perder a necessária precisão semântica e, por isso mesmo, perder a força quando da denúncia. Se tudo é assédio (até os dois beijos na bochecha), pode ser que nada seja assédio de verdade (como parece pretender o péssimo texto da Danusa Leão).

E o fenômeno parece ser mais amplo. O mesmo ocorre, por exemplo, com a palavra golpe, que virou uma espécie de boneca matrioshka, onde há sempre uma dentro da outra. É o golpe dentro do golpe, dentro de outro golpe e assim sucessivamente. Todas as ardilosas políticas de direita viraram formas de golpe. Ou seja, o que ocorreu em 1964 e a nomeação da nova Procuradora Geral da República são ambos fenômenos tratados pelo mesmo nome: golpe! Ao invés do que esperam aqueles que usam golpe para tudo, o que se consegue é um enfraquecimento da palavra, que perde sua forte carga semântica. Se há golpes todos os dias, por que devo me importar tanto assim?

Outra palavra que vem sofrendo de forte diluição semântica é “fascismo”. Qualquer governo de direita, de Macron, na França, a Temer, no Brasil, passou a ser fascista. Fascismo virou sinônimo de direita e com isso perdemos a especificidade da denominação. O risco é que a perda da especificidade signifique, também, a perda de capacidade para lidar com as características intrínsecas ao fascismo. Se todo governo de direita é fascista, devo lidar com todos da mesma forma?

Esse esmaecimento semântico parece ser mais um produto da histeria provocada pelas redes sociais. Pela primeira vez na história, temos um meio de comunicação que não é de “um para muitos”, mas de “muitos para muitos”. Ou seja, todos podem falar e ouvir ao mesmo. Vozes reprimidas durantes anos podem finalmente se expressar. Mas experimente estar numa sala onde todos são instados a falar ao mesmo tempo. O resultado não é mais democracia, mas histeria. Em pouco tempo, para serem ouvidas, as pessoas estarão gritando umas com as outras. Daí o tom de denúncia constante acaba sendo uma consequência inevitável. Fascista! Golpista! Assediador! Racista! Comunista! Coxinha (sic)! Petralha! Não é mais o sentido das palavras que importa, mas a capacidade de gritar mais alto, de fazer mais barulho, de xingar mais forte.

Para fazer a boa política, para saber exatamente o que estamos enfrentando, para construir estratégias de enfrentamento, a precisão semântica é uma premissa fundamental. Ou então prepara-se para ficar rouco gritando…