No início dos anos 2000, a Nokia havia ultrapassado a Motorola e se tornara a maior fabricante mundial de celulares. Hoje a empresa luta para sobreviver diante de boatos de que poderia ser vendida para a Microsoft. Essa suposta e inusitada compra seria uma resposta da Microsoft ao predomínio de Apple e o Google no segmento de sistemas operacionais para smartphones. E seria, também, a prova cabal de que os fabricantes de celulares foram vítimas de empresas que até pouco tempo atrás ninguém imaginaria serem suas competidoras. Afinal, o Google não era um sistema de buscas na Internet?

(No fundo, a Microsoft estaria apenas copiando o Google, que comprou a antiga grande rival da Nokia, Motorola.)

Mas, a Nokia não foi a única vítima dessa superação de fronteiras antes consideradas intransponíveis. Fabricantes de máquinas fotográficas digitais (muitos deles, como a Panasonic e a Sony, vencedores da batalha contra as máquinas analógicas) preveem uma queda de quase um terço nas vendas das máquinas portáteis, até agora o grande filão desse mercado. Enquanto aumenta exponencialmente o número de fotografias que circulam na Internet, fabricantes tradicionais como Canon e Fuji se vêem ameaçados pelos aparelhos celulares, portando câmeras cada vez mais potentes.

Quando os Estados Unidos liberaram o sinal de geolocalização de seus satélites militares (um sistema conhecido pela sigla GPS), imediatamente uma série de empresas, como a Garmin, lançaram aparelhos portáteis para serem usados, por exemplo, em veículos. Hoje essas empresas começam a sentir a concorrência dos smartphones e seus GPSs embutidos.

Antes indústrias totalmente separadas, hoje TV paga e telefonia são praticamente o mesmo mercado. No Brasil, a TV paga é dominada por empresas de telecomunicações como America Movil (NET e Claro TV), Telefonica de España (Vivo TV), Oi e GVT. A única que nasceu como operadora de TV paga (Sky) atualmente compra espectro na faixa de 2,5 GHz para oferecer banda larga.

Mas, as operadoras de TV paga já começam a sentir o ataque de empresas que fornecem conteúdo por demanda através da Internet. Entre essas empresas, consta novamente um certo sistema de buscas, uma loja virtual que nasceu para vender livros na Internet e uma fabricante de computadores conhecida pela marca da maçã mordida. Aliás, a Apple tem em seu portfólio o fato de ter jogado a pá de cal no modelo de negócio das gravadoras.

Tais operadoras também sabem que um novo rival vem surgindo e responde pelo nome de smartTVs. É questão de tempo para que as fabricantes de TV (especialmente Samsung e LG) consigam oferecer sólidos sistemas operacionais e vastos catálogos de aplicativos. Mas, tanto Samsung quanto LG sabem que não ficarão sozinhas nesse novo segmento e já contam em disputar com Apple e Google a supremacia sobre as salas das residências de todo o planeta.

Enquanto locadoras de vídeo vão se tornando peça de museu, também as livrarias lutam para sobreviver. Nos Estados Unidos a cadeia Borders, com 511 lojas, faliu e a gigante Barnes and Noble luta para resistir ao avanço de Amazon e Google no segmento de livros digitais.

Em julho, Omnicom e Publicis, respectivamente segunda e terceira maiores empresas de publicidade do planeta, se fundiram. O principal motivo não era enfrentar o WPP, até então maior grupo de publicidade do mundo. Os dois presidentes deixaram claro que o adversário a ser batido é o Google e seu predomínio no mundo da publicidade digital.

Este cenário de constante mutação e morte acelerada de empresas contribuiu seriamente para a crise japonesa. Suas antigas gigantes hoje estão invariavelmente do lado perdedor dessas batalhas. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos voltou a ter campeões mundiais e disputa mercado com os chaebols sul-coreanos. No horizonte, empresas chinesas como Lenovo e Huawei.

No Brasil, país incapaz de ter uma política industrial que não seja mero sinônimo de desoneração fiscal, apenas assistimos essa guerra, nos comprazendo em comprar aparelhos cuja tecnologia não dominamos.