Já na época dos “pais fundadores”, os Estados Unidos foram concebidos como uma potência belicosa, cuja anexação de territórios era um imperativo categórico. Um dos instrumentos utilizados para manter sua população sempre disposta ao enfretamento militar é a paranóia do inimigo oculto, que pode estar em qualquer lugar.

Para construir essa paranóia, a ajuda da indústria audiovisual norte-americana foi fundamental. Era assim, por exemplo, durante a Guerra Fria, quando diretamente, ou indiretamente na forma de filmes de ETs, instilava-se o medo constante de uma invasão e a necessidade de se estar sempre alerta.

(Vale lembrar que neste mesmo período, Hollywood sofreu o ataque externo do macartismo que lhe amputou parte considerável de sua capacidade criativa, mas a mesma Hollywood concordou em adotar o “Código de Produção”, criado por líderes religiosos e que visava suprimir das telas qualquer tipo de conduta considerada imoral, tendo perdurado entre 1934 e 1968.)

Hollywood sempre esteve disponível para quebrar o galho e manter a política ideológica norte-americana. Foi assim, por exemplo, que em plena crise do petróleo, a CBS produziu The Waltons, sobre uma família unida na superação dos efeitos da Crise de 29. Ou a mesma CBS produzindo Magnum, sobre um ex-combatente do Vietnã, vivendo deliciosamente nas praias do Hawaii. Ou ainda a ABC dando uma forcinha para o então governador da Califórnia, Ronald Reagan, na legitimação da violenta força especial de polícia conhecida como SWAT.

Agora é a vez do canal de TV paga Showtime produzir a série Homeland, que acaba de receber seis prêmios Emmys. A série é uma adaptação de outra série Israelense, onde uma agente da CIA desconfia que um militar, que foi mantido em cativeiro pela Al Qaeda, e agora é tratado como herói por seu governo, teria sofrido lavagem cerebral e migrado para as “forças do mal”. Claro que ninguém acredita na agente da CIA (exceto seu mentor, de nome Saul), que tem a missão de comprovar que mesmo um herói militar pode ser um inimigo em potencial.

Assim como os antigos comunistas, o inimigo islâmico (e não necessariamente árabe) pode ter mil faces, até mesmo a do seu vizinho, sorridente com aquele carrinho de aparar grama. Cuidado, eles estão entre nós!