(Embora esse texto seja bastante crítico ao sionismo, ele não endossa, muito pelo contrário, a visão de que o Estado de Israel tenha um comportamento nazista.)

Morreu Ariel Sharon e talvez essa seja uma excelente oportunidade para refletirmos sobre possíveis pontos de contato entre duas ideologias radicalmente opostas. De um lado, o racismo anti-semita e do outro o sionismo. Seria possível dizer que ambos têm algum ponto em comum? Segundo Shlomo Sand, professor da Universidade de Tel Aviv, por incrível que pareça, sim (veja aqui).

Ambas as ideologias existem baseadas no mesmo mito em comum: a idéia de que os judeus são um povo puro, uma unidade sanguínea comum, que remonta à milhares de anos.

É por acreditar que os judeus são uma “raça” que o anti-semitismo pode justificar a idéia de que todos os judeus são iguais (no caso, malévolos) e precisam ser exterminados. Sem a crença racial, o anti-semitismo seria um preconceito mais difuso (embora também pernicioso) como aquele que existe contra muçulmanos, por exemplo.

E é por acreditar que os judeus são uma “raça”, a mesma raça que habitou a Palestina há dois mil anos, que o sionismo pode reivindicar o direito de retorno. Seria muito mais difícil justificar o retorno à Israel baseado apenas numa cultura (nem mesmo uma língua) e uma religião comuns com os antigos hebreus.

Justiça seja feita, contudo, esse mito de unidade racial não é um privilégio de judeus, sendo adotado também por chineses han, turcos, eslavos e sérvios, entre outros. No caso da Turquia, por exemplo, não deixa de ser interessante perceber que boa parte dos atuais “turcos” são gregos que viviam na Anatólia e foram “turquizados” pelos seljúcidas.

No caso dos judeus, o mito de unidade racial através dos tempos está baseado em duas falácias que não encontram sustentação histórica.

De um lado, a idéia de que todos os judeus migraram de Israel após a queda do segundo templo, em 70 d.c. Ocorre que não há qualquer registro histórico deste êxodo total (embora já houvesse uma forte diáspora de judeus pelo Império Romano). Isso significa que, muito provavelmente, boa parte do povo judeu permaneceu na Palestina e foi islamizado em algum momento entre a chegada dos Omíadas, no século VII, e o fim da terceira cruzada.

De outro lado, a idéia de que não houve conversões de outras populações ao judaísmo. Ocorre que há intelectuais judeus, como o professor Arthur Koestler, que estudaram a conversão, por exemplo, do Império Khazar (espremido entre abássidas muçulmanos e bizantinos cristãos). Caso contrário, como explicar que os sefaraditas tenham incríveis semelhanças físicas com mouros, berberes e fenícios, enquanto são tão diferentes dos ashkenazis (que, por sua vez, são parecidíssimos com russos, poloneses, alemães, lituanos, tchecos e eslovacos, por exemplo)? Teriam os judeus, ao longo dos séculos, adquirido uma impressionante capacidade de mimetizar os povos ao seu redor?

Afirmar, como esse texto faz, que não passa de um mito a idéia da unidade racial dos judeus pode ser algo perigoso no mundo de hoje, porque contaria imediatamente com a ferrenha oposição de dois inimigos de vida e morte (o racismo anti-semita e o sionismo). Afirmar que não há uma linha reta ligando hebreus aos atuais judeus é negar, ao mesmo tempo, o racismo anti-semita e o direito de retorno dos sionistas (ou, pelo menos, enfraquecer consideravelmente a ambos). Curiosamente, contudo, isso significa conferir aos judeus uma história muito mais rica, viva, saboroso, mestiça e conflituosa e não algo homogêneo, retilíneo e uniforme, trafegando por milênios ao largo da história de todos os demais povos.

(Antes de criticar, por favor releia o texto com calma, ok?)