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Não conheço o autor, mas tomo liberdade de publicar texto do professor Pedro Jorge de Freitas por expressar exatamente o que penso a respeito do julgamento do ex presidente Lula.

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Contrariando muitos amigos militantes da esquerda não petista, não considero que seja indiscutível o direito de Lula participar da eleição de 2018. Isto não quer dizer, deixe-se bem claro, que eu defenda sua condenação e exclusão do pleito presidencial. Ao contrário. Mas não concordo com o tom de heresia com que querem caracterizar este debate.

A esquerda não petista, muitas vezes ao falar de Lula, tergiversa quando o assunto é corrupção: fala de alianças espúrias, política de governabilidade, conciliação de classes ou presidencialismo de coalizão. O problema é que sabemos com quem foram feitas estas alianças espúrias, estes pactos de governabilidade, este presidencialismo de coalizão: exatamente com a corja que conseguiu empalmar o poder através do golpe do impeachment. Temer, Jucá, Moreira, Sarney, Renan, Delcídio, Geddel, Cabral, e tantos outros, não eram nomes estranhos entre os frequentadores do Alvorada durante os treze anos de governo petista. Ocupavam ou indicavam ocupantes de ministérios, diretorias, presidências, uma quantidade gigantesca de postos que lhes permitissem manter engraxadas as engrenagens dos esquemas de corrupção. E sabemos, estamos cansados de saber, sob quais condições estes senhores costumam negociar seus apoios políticos a quem quer que seja. Ou seja, a política de conciliação de classes deu-se sob a forma programática dos benefícios no atacado ao grande capital e das políticas sociais no varejo. Mas, no dia a dia, no frigir dos ovos, a governabilidade era dada pela velha política do toma lá, dá cá, sendo que o dá cá seria, de preferência, em espécie. 

Lula e o PT não inventaram, evidentemente, a corrupção. Mas nadaram de braçada nela. Não criaram, talvez, novos esquemas, mas apropriaram-se sem maiores pudores dos esquemas herdados de governos anteriores. É ofensivo à reconhecida capacidade intelectual de Lula, ao seu discernimento político, ao seu tino para esta atividade, alegar que ele não sabia de nada. É impossível alguém chegar à presidência da república e não saber o que Geddel, por exemplo, fará quando estiver de posse de um cargo público. Trata-se, então, diante da força política que representam  tantos Geddeis, Jucás e Delcídios, de tomar uma posição: empurrar com a barriga, fechar os olhos e se manter  no poder enquanto for possível, ou partir para o enfrentamento e por aos olhos de toda a população como é que funcionam as coisas e buscar nessa população o apoio para continuar governando. Lula e Dilma, na melhor das hipóteses, optaram pelo primeiro caminho. Isso considerando-se, até com certa ingenuidade, que não tenham auferido para si ou para os seus nenhum benefício material e que tenham feito esta opção por acreditar que de fato agiam em benefício de todos. A segunda alternativa, para os petistas em geral, simplesmente nunca existiu, o que dá, para eles, a questão por encerrada.

Dessa forma, dos governos peessedebistas de FHC aos governos petistas de Lula e Dilma, isso para não irmos ainda mais lá atrás, falando de Collor e dos ditadores militares, existe uma linha de continuidade dos esquemas de corrupção, alterando-se aqui ou ali uma ou outra peça entre seus operadores. Daí que se a situação fosse outra, se FHC tivesse sido acusado de corrupção, já condenado em primeira instância, e buscasse em um novo pleito salvar-se de uma condenação definitiva, estariam as mesmas pessoas que hoje defendem Lula defendendo o  inquestionável direito de FHC candidatar-se? Um impedimento por via judiciária de sua candidatura representaria a mesma ameaça à democracia que hoje se alega no caso de Lula? Suposições serão sempre suposições e esta pergunta permanecerá sem resposta convincente. Mas, o passado nos induz a crer que não, se lembrarmos com que tenacidade petistas pediam o impeachment de FHC na última década do século passado, ou que a “ética na política” sempre foi uma das bandeiras mais torquemadamente  alardeadas pelos petistas de longos dedos indicadores e que a própria lei da Ficha Limpa tem nesses quadros a sua origem.

O problema desloca-se, então, para uma questão secundária, mas que ganhou importância indiscutível: a forma como Lula foi investigado, denunciado e condenado em primeira instância. E é esta questão que me faz defender o direito de Lula candidatar-se. Lula, Dilma e quem mais acabou entrando nesta história, de Genoíno, Zé Dirceu, até a parte da esquerda que não tinha nada a ver com ela, jamais tiveram julgamento, formal ou informal, que pudesse se comparar a qualquer processo que envolvesse tucanos de alta ou média plumagem. Nem mesmo a escória mais próxima de Temer – ele incluído – jamais foi acossada com a mesma contundência ou ligeireza de processo com que está sendo Lula e outros petistas. As denúncias, o processo, o julgamento e a parcialidade da cobertura midiática deixam claro que não há qualquer preocupação em destroçar esquemas de corrupção. Em resumo, a merda da coisa é que somos obrigados a defender que Lula não seja condenado não por conta de sua pressuposta inocência, mas porque outros também não o foram e porque aqueles que o julgaram e julgarão demonstraram sobejamente não reunir condições morais para fazê-lo. Uma falência moral generalizada que o réu em questão deu importante contribuição em sua efetivação.

Ao que parece, Lula, aos olhos das classes dominantes, ou de parte dela, tornou-se prescindível. E como elas, ao contrário do antigo líder operário, têm uma memória de classe bem apurada, é bem possível que lhe impeçam de disputar o pleito, embora a prisão seja uma possibilidade mais remota. Mas, tempos de crise são tempos de crise e o emergir de explosões sociais poderiam dar um novo alento a Lula prorrogando seu prazo de validade como o bem comportado líder popular. Ele próprio vem, de todas as formas possíveis, reafirmando suas promessas de bom comportamento, acenando com um patético perdão aos golpistas, insistindo na tese de que alianças são feitas com quem ganha, buscando uma reaproximação com segmentos empresariais, mas tudo isso, ao menos por enquanto, não é suficiente. Sem as ruas, sem algum calafrio percorrendo a espinha dos exploradores, Lula é carta fora do baralho. Se, entretanto, em caso de recrudescimento da luta de classes, voltar ao jogo,  será apenas para restaurar a tão propalada tranquilidade do mercado. De uma forma ou outra, não é alternativa para os trabalhadores.