É claro que não é na educação do homem que se deve procurar a origem do sentimento nacional, mas em algo que a precede. Em que? Meditei longamente sobre essa questão e respondi: no sangue. E persisto nessa opinião. O sentimento da identidade reside no ‘sangue’ do homem, em seu tipo físico e racial e apenas aí. () O tipo físico do homem reflete sua estrutura mental de maneira ainda mais total e perfeita que o estado de espírito individual. () É o porquê de não crermos na assimilação espiritual. É fisicamente impossível que um judeu, nascido várias gerações de país de sangue judeu livre de qualquer miscigenação, se adapte ao estado de espírito de um alemão ou de um francês, assim como é impossível para um negro deixar de ser negro. (JABOTINSKY, Ze’ev. Carta sobre o autonomismo. 1936)

Minha mulher é cristã e protestante e, segundo minha educação, eu me oponho evidentemente a toda coerção em questão de sentimentos e, nesse caso, prefiro o humano ao nacional. Mas, hoje sou da opinião de que é preciso dar prioridade ao nacional e considero que os casamentos mistos não são de forma alguma desejáveis. Se eu tivesse conhecido hoje minha esposa, se eu a tivesse conhecido nos últimos 18 meses, teria combatido de todas as minhas forças qualquer inclinação afetiva por ela, dizendo-me que como judeu não poderia me permitir ser subjugado por meus sentimentos.(NORDAU, Max. Carta a Theodor Herzl. 1898)

Por sugestão do doutor Laudauer, eu fui à Iena em 08-11 para encontrar o professor Hans Gunther, fundador da teoria da raça nacional-socialista. A conversa durou duas horas. Gunther foi muito amistoso. Declarou não ter direito de autor sobre o conceito de arianismo e concordou comigo sobre o fato de os judeus não serem inferiores, mas diferentes, e que era preciso resolver o problema com decência.(RUPPIN, Arthur. Diário pessoal. 1933)

Há certas coisas que não podem ser ditas por um goy, sob pena deste ser imediatamente acusado de antissemitismo. Justamente por isso, merecem todo nosso respeito a coragem e a erudição do judeu-austríaco Shlomo Sand, em seu livro “A invenção do povo judeu”, publicado no Brasil pela Saraiva, em seu selo Benvirá. Sand nasceu em 1946 nos acampamentos de refugiados judeus da Áustria, tendo se mudado com seus pais para Israel em 1948 (onde combateu pelo exército de Israel durante a Guerra dos Seis Dias) e atualmente é professor de História Contemporânea da Universidade de Tel-Aviv. Sob nenhuma hipótese, portanto, pode ser considerado um antissemita.

No livro, Sand utiliza uma profusão impressionante de fontes históricas para questionar as duas ideias centrais sobre as quais se ergue o moderno Estado de Israel. Em primeiro lugar, a queda do Segundo Templo, em 70 d.c., não teria gerado uma diáspora de todo o povo judeu, que só voltaria a pisar na Terra Santa a partir do advento do sionismo e mais particularmente da fundação de Israel. Em segundo lugar, os atuais judeus não são um “povo puro”, herdeiros de sangue de Abraão, Davi e Salomão. Não haveria, portanto, um “gene judeu” (como curiosamente defenderam tanto nazistas quanto sionistas).

Na primeira parte do livro, Sand produz uma profunda análise do conceito de “nação”, demonstrando como se trata de uma idéia recente na história da humanidade, ditada por imperativos surgidos com o advento do capitalismo e que representou a tentativa de uniformização de culturas até então bastante plurais (muitas vezes também contraditórias e conflitivas). Cada Estado-nação precisou, então, criar seus mitos de origem, buscando justificar o presente a partir de um passado mitológico e uniforme. Mas, o autor também busca explicar (sem que se encontre uma causa única e suficiente) o surgimento de dois tipos distintos de “nações”. De um lado, aquelas de caráter cívico-político (como os Estados Unidos, Reino Unido, França, Itália e o próprio Brasil). De outro, aqueles de caráter étnico-racial (como a Alemanha, Rússia, Polônia e Sérvia). Sand não deixa de registrar que o sionismo surge, no século XIX, no mesmo ambiente cultural que criou também o germanismo étnico-racial.

Na segundo parte do livro, o professor Sand se concentra na formação do Estado de Israel e nas estratégias utilizadas (tanto na pesquisa acadêmica, quanto em sua vulgarização no ensino escolar e na mídia) para criar um imaginário que fosse capaz de recuar sem rupturas até um passado milenar. Em alguns casos, a literatura sionista chega a falar de um mesmo povo (uma mesma cultura, uma mesma raça, uma mesma religião) existindo puro e imaculado pelos últimos 4 mil anos!

Na terceira parte, o autor se propõe a analisar criticamente a história dos judeus na atual Palestina. Primeiro, fica demonstrado como, sob o manto do monoteísmo, havia uma cultura em profunda ebulição. Sand demonstra como o o judaísmo foi profundamente influenciado pela cultura e o ambiente socioeconômico do helenismo e como a queda do Segundo Templo, embora tenha representado a perda de autonomia política e uma forte emigração (especialmente daqueles feitos escravos e prisioneiros), não despovoou a Palestina de judeus, tendo a grande maioria continuado a viver em seus vilarejos natais (o que significa que seus descendentes são aqueles que foram posteriormente islamizados e hoje estão entre os moradores dos territórios ocupados… ó profunda e triste ironia). Mas, principalmente, Sand contraria a idéia de que os judeus jamais desenvolveram práticas de proselitismo e conversão. Ao contrário, não apenas a monarquia dos hasmoneus teria promovido uma política de conversão em massa das tribos vizinhas, como foi a disseminação do proselitismo judaico que preparou o terreno cultural, entre os povos governados por Roma, para as futuras expansões dos monoteísmos cristão e muçulmano.

A quarta parte busca estudar a expansão do proselitismo judaico nas franjas das expansões árabe e cristã. Assim, tomamos contato com o reino judeu de Adiabena, no crescente fértil, e com os himiaritas, no atual Iêmen. Mas, principalmente, e aqui talvez repouse a parte mais polêmica do livro, Sand defende que os judeus sefarditas são, em sua grande maioria, descendentes de tribos berberes e fenícias judaizadas (que chegaram na Espanha com a invasão muçulmana). Assim como os judeus asquenazis (o povo do iídiche, vindo da Rússia, Polônia, Ucrânia, Lituânia, Hungria, República Tcheca, Eslováquia e outros países do leste europeu), são, em sua maioria, descendentes do reino turco-asiático dos khazares, que se converteram em massa ao judaísmo para se defenderem culturalmente do Império Abássida (muçulmanos) e de Bizâncio (cristãos), seus vizinhos pouco amigáveis. Essas culturas convertidas teriam se mesclado, ao longo dos séculos, tanto com judeus da diáspora quanto com membros dos povos autóctones, formando novas e múltiplas culturas judaicas.

A quinta e última parte retoma o debate sobre o projeto político sionista, sua origem no mesmo caldo cultural que gerou o germanismo e como, a fim de unificar diferentes culturas judaicas, dispersas em várias continentes, o sionismo teria lançado mão de uma explicação biológica: o infame “gene judeu”. Assim, assistimos assustados ao surgimento de um discurso racista, que no início do século XX media crânios e hoje pesquisa alelos em cromossomos para determinar o grau de pureza da raça judaica. Atualmente, muito dinheiro é investido em laboratórios de biologia genética em Israel e nos Estados Unidos para tentar “provar” que, na história judaica, jamais existiram berberes, fenícios e khazares, sendo todos (os morenos sefaraditas e os loiros asquenazis) descendentes “puros” de antigos súditos do reino de Judá. Ao mesmo tempo em que se torna imperioso para a defesa do Estado de Israel “provar” que os atuais palestinos não passam de invasores daquelas terras.

O livro de Sand produz, ao final, dois efeitos aparentemente contraditórios. De um lado, fica evidente o caráter colonialista e racista do sionismo (mesmo quando defendido por membros da “esquerda” judaica), especialmente ao construir um novo regime de apartheid. De outro lado, desprovido do sionismo, a história do povo judeu nos surge muito mais rica, instigante e saborosa, refletindo multiplicidades de povos e culturas no interior de uma mesma crença capaz de sobreviver às mais cruéis perseguições, e não mais um povo excluído e excludente, vivendo às margens da história. É impossível não ver em Shlomo Sand um judeu em busca da libertação de seu povo, ainda que, dessa vez, se trate da libertação frente ao projeto sionista. Alegra-nos, portanto, ler, na “orelha” do livro, que esta obra ficou 19 semanas na lista dos mais vendidos em Israel, em 2008.

Que este livro possa, então, germinar em solo fértil e contribuir (excesso de otimismo?) para o surgimento, no futuro, de um único Estado onde vivam, em igualdade de condições, judeus-israelenses, palestinos e todos aqueles que por lá escolherem fazer a sua morada. Se ainda estamos (infelizmente) no âmbito civilizatório dos Estados-nação, que pelo menos estes o sejam de caráter cívico-político e não mais étnico-raciais.

Sugestão de leitura:

“Imagem e realidade do conflito Israel-Palestina”, de Norman Finkelstein. Editora Record. http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=3178179&sid=89601615114618495612053

“Os khazares: a 13° tribo e as origens do judaismo moderno”, de Arthur Koestler. http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=853002&sid=89601838914622498438499811

“A Threat from Within: A History of Jewish Opposition to Zionism”. Yakov Rabkin. http://www.amazon.com/Threat-Within-History-Opposition-Zionism/dp/1842776991

“Israel: the alternative”. Tony Judt. http://www.nybooks.com/articles/archives/2003/oct/23/israel-the-alternative/?pagination=false

http://www.haaretz.com/print-edition/news/ashkenazi-parent-sephardi-girls-have-a-bad-influence-on-our-girls-1.1513

http://www.haaretz.com/news/national/day-after-violent-anti-african-protest-likud-mk-calls-to-distance-infiltrators-immediately-1.432374