Há dois pressupostos antropológicos que são caríssimos ao liberalismo. Primeiro, a crença de que a disputa, a rivalidade e a competição são não apenas inerentes ao ser humano como os elementos determinantes de nossa natureza. Segundo, a aposta de que deixados a sua própria sorte, os seres humanos “naturalmente” criam mercados e, mais do que isso, tendem a transformar praticamente tudo em mercadorias possíveis de serem negociadas; quando não agem assim é porque ainda não estão suficientemente evoluídos.

Mas, deixo aqui uma sugestão de bibliografia capaz de questionar ambos os pressupostos:

– “A era da empatia”, de Frans de Waal, da Companhia das Letras. Este famoso primatólogo, após muitos anos de pesquisa de campo, propõe que tão importante para a vida quanto a competição é a entropia, entendida como a capacidade dos seres vivos em criar laços identitários entre si. Para de Waal, a solidariedade humana é “apenas” um refinamento cultural de uma característica inerente a todos os seres vivos. Segundo o livro, o Darwinismo Social erra redondamente ao desconsiderar que os seres vivos são tão competitivos quanto colaborativos e negar uma dessas duas características seria negar a própria essência da vida em nosso planeta.

– “Ensaio sobre a dádiva”, de Marcel Mauss, da Edições 70. Ao contrário do que se pode imaginar pelo título, este clássico de Mauss não propõe um sistema de trocas desinteressado, mas sugere que as trocas podem ir muito além de meras demandas econômicas. Estudando sociedades tradicionais da Polinésia e dos Estados Unidos, Mauss encontra relações de troca “totais”, envolvendo, num único gesto, aspectos sociais, religiosas, morais e econômicos simultaneamente.

– “A economia antiga”, de Moses Finley, da Editora Afrontamento (esgotado). Neste e em vários outros livros, Finley se notabilizou por criticar a análise histórica tradicional por pressupor que a economia seja inerente às organizações humanas em todos os tempos. Finley defende, com extensa pesquisa de fontes primárias, que sociedades como a grega clássica e a romana, embora extremamente complexas, desconheciam conceitos econômicos que acreditamos serem triviais. Para o autor, a economia moderna é “apenas” um tipo de organização histórica para as trocas materiais.

– “A grande transformação”, de Karl Polanyi, da Editora Campus. Neste outro clássico, Polanyi defende que embora seja possível encontrar relações de troca em todas as sociedades humanas, a aposta de que todo o metabolismo social poderia ser regulado pelas trocas mercantis é algo bastante recente na história da humanidade, construída às custas de muito sofrimento e, em última instância, insustentável no longo prazo. Polanyi desmitifica a idéia de que o capitalismo representa uma “evolução” natural da humanidade.

– “Laws of the markets”, organizado por Michel Callon, da Blackwell Publishers. Sob certo sentido, é possível ver em Polanyi o prenúncio do que viriam a ser os estudos de antropologia econômica de pesquisadores como Michel Callon. Mercados não brotam, são construídos. Tampouco o funcionamento dos mercados é sempre o mesmo, supostamente seguindo regras ahistóricas. Ao contrário, os mercados respondem aos seus respectivos arranjos sócio-técnicos.

– “Manifesto contra o trabalho”, Grupo Krisis, da Conrad do Brasil (esgotado, mas pode ser baixado aqui). Que sociedade estranha essa, onde é possível dizer que um agricultor arando a terra, uma prostituta vendendo relações sexuais, um padre rezando uma missa e um pedreiro erguendo um muro estão fazendo a mesma coisa? Só é possível chamar todas essas atividades pelo mesmo nome (“trabalho”) quando elas são esvaziadas de suas características intrínsecas e transformadas apenas em uma quantidade de tempo e energia gastos. Portanto, é possível dizer que nunca alguém trabalhou antes do capitalismo e que a superação do capitalismo passa, necessariamente, pelo fim do “trabalho”.