(O texto abaixo foi fortemente inspirado no livro “Ciência em Ação”, de Bruno Latour)

Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (COPPE)
Doutorado em História das Ciências, das Técnicas e Epistemologia
Disciplina: Fatos e Artefatos como Construções Sóciotécnicas
Professores: Ivan da Costa Marques & Fernando Manso
Aluno: Gustavo Gindre Monteiro Soares
1º Módulo – 2001

SOX

1) Justificativa

Quando me vi na obrigação de entregar este trabalho, pensei em um tema que envolvesse a Política Nacional de Informática, pois acreditava ser aquele um momento especial para a definição dos rumos da ciência e tecnologia feitas no Brasil: um ponto de inflexão em nossa história recente.

Pelas limitações de espaço e de competência do autor, contudo, fica ainda o desafio de produzir uma obra de maior fôlego que consiga reunir os elementos “sociais” e “técnicos” desta história, em um todo inextrincável. Até o momento, o que encontrei foram estudos feitos por pessoas egressas da área de ciências humanas (que nos contam o “lado social”) e relatos dos técnicos (que nos dizem o que acontecia, naquele mesmo momento, dentro dos laboratórios). Apenas incidentalmente uma história encontra a outra e nunca de forma a torna-las uma única narrativa.

Aqui, procurarei analisar, apenas, uma das peças deste tabuleiro: o sistema operacional SOX, desenvolvido pela Computadores do Brasil S.A. (COBRA).

Ainda assim, com a limitação metodológica decorrente do fato de que não me foi possível acompanhar a “ciência em ação”, cabendo-me a tentativa de reconstituir, através de narrativas (entrevistas e fontes bibliográficas), aquilo que, um dia, foi ação. O problema das narrativas é que a lógica por detrás delas não é a mesma deste trabalho. Aspectos sociais e técnicos encontram-se, como já disse, cindidos. Minha maior dificuldade foi reuni-los a posteriori, sabendo que sempre corria o risco de “forçar a barra”, de provocar laços que não existiam há doze, quinze anos atrás. Mas, não havia outro modo de proceder…

2) Antecedentes

O SOX ocupa a curiosa posição de desdobramento de uma longa rede sóciotécnica ao mesmo tempo em que surge no momento exato em que esta rede já dá sinais de irreversível fadiga.

As alianças que lhe permitiram o nascimento podem ser remontadas à décadas anteriores. Um de seus vetores certamente repousa no Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA), primeira escola de engenharia eletrônica do país, e que formou uma geração de jovens herdeiros de um certo “espírito nacionalista”, que se mostrará, depois, como um dos motores de nossa história.

Já no início dos anos 70, a Marinha brasileira comprara fragatas inglesas e se preocupava com o fato de que a montagem e a manutenção dos equipamentos de bordo teria que ser feita por empresas estrangeiras, constituindo “risco à soberania”.

Nascia ali a idéia de se montar um computador brasileiro. O primeiro protótipo chamou-se G10, foi feito em parceria pela Universidade de São Paulo (USP) e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e era um clone do FM 160 da Ferranti, a empresa inglesa que equipava as fragatas.

A mesma Ferranti foi sócia fundadora, junto com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da COBRA, empresa que ficou encarregada de garantir a construção do conjunto de tecnologias ligado aos minicomputadores. A escolha do parceiro já revelava um erro que depois se mostraria um dos elos fracos da corrente: o Brasil sintonizou parte de seu crescimento na área às opções tecnológicas da Europa, que terminaria perdendo a dianteira tanto para os Estados Unidos quanto para o Japão.

Seria longo contar aqui toda uma rica história que se desenrolou nos conturbados anos 70 até que o projeto do SOX começasse a girar sobre suas próprias rodas.

Importante é que o leitor saiba que após a criação da COBRA, em 1974, o desenvolvimentista governo militar de Geisel, através do II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) e do II Plano Básico de Desenvolvimento Científico Tecnológico (II PBDCT), reforçou o papel da Coordenação de Atividades de Processamento Eletrônico (CAPRE), permitindo o surgimento de uma Política Nacional de Informática (PNI), que se baseava na criação de hardwares e softwares feitos com tecnologia nacional, caminho contrário ao da “nacionalização das tecnologias”.

Esta política permitiu à empresa criar, em 1980, o COBRA 530 (UCP de 16 bits, com quatro placas agrupando vários processadores AMD 2901 e memória de 500 KB), uma evolução do G11, que, por sua vez, evoluiu do G10. Nele rodava o sistema operacional proprietário multiusuário e multitarefa SOD, escrito em assembler. Mas, as conquistas chegaram em um outro cenário, um governo diferente (Figueiredo), onde a CAPRE foi substituída pela Secretária Especial de Informática (SEI) ficando sob a área de influência direta do Sistema Nacional de Informações (SNI), de onde viera o então presidente da República.

A COBRA também mudara e sua composição acionária incluía, no lugar do sócio estrangeiro, um pool de bancos privados nacionais, liderados por Bradesco e Itaú.

É neste cenário, resumido de forma tão brusca, que encontraremos a rede sóciotécnica chamada SOX.

3) A rede SOX

Firmo Freire chegara fazia pouco de seu doutorado em Houston, no Texas, quando assumiu a gerência de desenvolvimento de softwares da COBRA, tendo coordenado todo o trabalho que originou o SOD. Em 1983, a “rede SOD”, contudo, já se desestabilizara e não era mais possível manter alistados elementos como UCPs de 16 bits, linguagens “montadoras” e toda uma cadeia de clientes.

Já se sabia que o sistema operacional deveria evoluir para acompanhar os novos programas de 32 bits. Naquele momento, vivia-se o estertor do período de ditadura militar, um clima de redemocratização e de forte nacionalismo, que se refletia também no moral dos empregados da COBRA. A primeira opção projetada foi a de se fazer um “SOD de 32 bits”, mantendo o desenvolvimento, da primeira a última linha de código, totalmente nacional.

Contudo, um outro caminho já começara a ser trilhado fora do país e que obrigou a uma translação por parte dos desenvolvedores da COBRA.

* Eu quero, por que você não quer?

Criado em 1971, no Bell Labs da AT&T, o sistema operacional UNIX conseguira montar nos últimos anos uma extensa rede de aliados. Em primeiro lugar, não era feito em uma linguagem “montadora”, mas em C (“a linguagem da moda”, segundo Firmo), podendo ser transportado para outras máquinas. Essa característica alistava ao seu lado os pequenos fabricantes que começavam a pulular, principalmente nos Estados Unidos, e que não estavam dispostos a ficar dependentes de um único fornecedor. A AT&T também contara com inúmeros desenvolvedores ao redor do mundo que passaram a acrescentar novas funções e características ao UNIX original. Rapidamente foi surgindo toda uma extensa biblioteca de aplicativos que “rodavam” neste sistema operacional (o UNIX conseguira se tornar um ponto de passagem obrigatória para diversas software-houses). Por fim, os Estados Unidos empregavam sua diplomacia para defender os interesses da empresa que, até 1984, foi detentora do monopólio da telefonia norte-americana.

Segundo Firmo, as raras idas às feiras internacionais serviram para alistar os desenvolvedores da COBRA na “rede UNIX”. Um programa “like UNIX” parecia ser o caminho certo a ser tomado, mas não apenas emulando o sistema da AT&T. Afinal, esta não era a mesma rede e outros elos precisariam ser dispostos.

A própria existência da COBRA dependia, naquele momento, do sucesso da PNI. Os laboratórios de Jacarepaguá (sede da empresa) estavam diretamente ligados a empresários em São Paulo, ministérios em Brasília, outros laboratórios na Califórnia e escritórios em Washington1. O discurso mobilizador daqueles que “saíam dos laboratórios” e o dinheiro que traziam de volta só podiam existir se o software produzido não fosse uma simples cópia, dando sobrevida ao projeto de uma indústria nacional de informática.

Ele deveria aceitar os aplicativos feitos para o UNIX e guardar o principal trunfo deste: ser transportável. De resto, incorporava as “conquistas nacionais” do SOD, trazendo como aliado o discurso e os atores do nacional-desenvolvimentismo2. O UNIX era dividido em três camadas: na primeira ficavam os aplicativos; na segunda um conjunto de programas e comandos a serviço do usuário, como o Shell; na terceira, todo o suporte a serviço do usuário e os comandos que executam as partes físicas do computador. Já o SOX, com quatro camadas, isolava no núcleo apenas os comandos que operavam a máquina. Mais modular, ele poderia ser facilmente transportado de uma máquina para outra.

Além do diferencial das suas camadas constituintes, foi graças ao engenheiro Luís Alberto Ferreira que o programa incorporou um novo aliado, inexistente no UNIX: o conceito de “máquina virtual”: programa dentro do sistema operacional que simula uma interface com um computador fictício e permite operar independentemente da máquina na qual se está instalado; os programas assim gerados podem ser transportados para diferentes máquinas a partir da implementação daquela interface.

* Se você desviasse um pouquinho…

A fim de se alistar na “rede UNIX”, os desenvolvedores da COBRA tiveram, porém, que tomar caminhos diferentes daqueles já percorridos pelo SOD. Era o preço a ser pago para construir um artefato “like UNIX” que conseguisse capturar para esta nova rede (o SOX) os usuários do software norte-americano de 32 bits. Assim, o novo sistema operacional se desfez da avançada interface de seu antecessor, ficando com “cara” de UNIX, muito menos amigável.

* Os elos fracos

Mas, o SOX tinha aliados frágeis.

A COBRA limitava as viagens ao exterior. Seus cinco gerentes de desenvolvimento podiam viajar em grupos de, no máximo, três pessoas, apenas uma vez por ano. Havia pouco intercâmbio e assim ficava-se mais exposto à propaganda que chegava. Tudo indicava que o futuro passaria pela arquitetura de 32 bits da Motorola, para a qual o SOX foi projetado a partir do lançamento, pela COBRA, da Linha de computadores X. Ninguém esperava que o padrão fosse outro…

Em 1982, a IBM havia jogado uma outra cartada deste jogo, ao lançar o seu Personal Computer (PC), agregando uma série de elementos que passariam a se tornar pontos de passagem obrigatória para os microcomputadores: teclado autônomo, monitor de vídeo de alta resolução, unidades de disco flexível, saída para impressora, mas, especialmente, duas alianças que se seriam a chave de tudo o que viria depois: a Intel fornecendo o chip (8088) e a Microsoft com o sistema operacional (DOS). Podemos dizer que, assim como Eastman, com a sua Kodak, criou o fotógrafo amador, a aliança entre IBM, Intel e Microsoft, “coagulada” no PC, criou o dínamo do futuro da informática: o mercado SOHO (small office / home office).

Por esse caminho, várias apostas do SOX se mostrariam infrutíferas. O padrão de 32 bits não era o Motorola (dos pioneiros 68020), mas a arquitetura Intel (80386). A interface dominante seria DOS e não UNIX. E o trabalho, ao invés de ser feito em sistemas multiusuário e multitarefa, passaria por redes LAN. Também a parceria com a Data General na área de superminis se mostrou infrutífera diante do crescimento dos micros e de sua capacidade de dispor, numa única pastilha de silício, de todos os elementos de uma UCP: os chips3.

Fora dos laboratórios, a “rede SOX” também não conseguia se estabilizar.

Quando a primeira versão do SOX chegou ao público, em 1986, o cenário institucional havia se alterado. O governo Sarney trouxera a PNI para a esfera do recém-criado Ministério da Ciência e Tecnologia, dirigido por Renato Archer, distante do grupo político do presidente (e aliado de Ulysses Guimarães).

Na contraface do governo, estavam os ministérios da Indústria e Comércio e da Fazenda e a Carteira de Comércio Exterior (CACEX). Os três funcionaram como focos de conflito, a partir da ação de novos atores desta trama. Pressionados pela direção da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), adotavam posições internas a favor dos Estados Unidos (no contencioso contra a PNI), temendo retaliações comerciais nas áreas de sucos, calçados, aços e aviação. Também aumentavam as alianças comerciais entre empresas brasileiras e norte-americanas (Gerdau-IBM, Edisa-HP e Hering-Siemens, por exemplo), favorecendo a idéia de “nacionalização das tecnologias”.

Mas, ninguém foi mais longe do que o Ministério das Comunicações. Desde Geisel, passando por Figueiredo e chegando a Sarney, o secretário geral do ministério era Rômulo Villar Furtado, ferrenho defensor de alianças com multinacionais. Na correlação de forças, Antônio Carlos Magalhães (o ministro das Comunicações) e Furtado (o secretário) permaneceram, mas Archer não.

Por último, também a Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA) se tornaria adversária da PNI, de olho na possibilidade de empresas estrangeiras se instalarem em Manaus.

Eram adversários em demasia: três ministérios, laranjas, sapatos, a CACEX, a SUFRAMA, aços e alianças comerciais. A extensão da rede estava em jogo e os laboratórios se fragilizavam…

* (Não) Remanejando interesses e objetivos

Estávamos no final de 1986 e o cenário interno não era nada positivo. O Plano Cruzado se esfacelara, levando consigo a aposta de um desenvolvimento econômico baseado em forças endógenas. De uma imensa euforia, o país mergulhava em profunda depressão e teria que conviver com um governo fraco, sujeito a todo o tipo de pressão.

Também na COBRA as coisas não iam bem. A hiper-inflação corroia os salários e a moral da equipe, os sócios privados deixavam o barco, procurando trilhar seus próprios caminhos (como exemplifica a Itautec, do Grupo Itausa) e aumentava a rotatividade do pessoal qualificado. Oscilando entre ser tratada como estatal ou como empresa privada, a COBRA amargava o pior dos dois mundos.

Progressivamente, o cenário foi se moldando através de um somatório de interesses internos e externos. A balança foi pendendo contra a PNI no mesmo movimento em que o SOX ia ficando sem aliados.

Cinco empresas nacionais (Edisa, Digirede, Sid, Mediata e Labo) divulgaram o manifesto “Em defesa de tecnologias abertas”. Este era um golpe de morte no SOX, pois, no Brasil, começava a encontrar eco o discurso que afirmava que em Jacarepaguá estava se construindo um obstáculo ao desenvolvimento nacional. O giro era de 180 graus.

Os chips, os PCs, as redes LANs, a arquitetura Intel e os sistemas operacionais monousuário e monotarefa da Microsoft tinham, enfim, se tornado caixas-pretas e não levá-los em conta era por em risco o desenvolvimento do parque industrial brasileiro.

De propulsores a empecilhos, os laboratórios já não eram os mesmos: antes requisitados para produzir o SOX, o papel proposto agora seria o de “integradores” de outras redes.

O desejo da COBRA também não conseguiu aliar os possíveis clientes do software. Proibida de usar o UNIX e também o DOS (pois havia um similar nacional da Scopus, o SISNE), boa parte das empresas usuárias de informática, ao invés de licenciar o SOX, passou a piratear os sistemas operacionais da AT&T e da Microsoft.

Depois de empregar cerca de US$ 20 milhões e 80 pessoas no desenvolvimento do SOX, a COBRA estava isolada. Não tinha mercado interno, não conseguia exportar e não arregimentava aliados.

De quebra, se encontrava no meio do contencioso com os Estados Unidos. Primeiro, pela disputa com AT&T quanto à natureza do SOX. Depois, pela aliança com a SCOPUS em torno do SISNE (agüentando uma pressão que passava por Bill Gates e chegava até o Departamento de Comércio dos Estados Unidos). As duas questões foram levadas para debate no Conselho Nacional de Informática (CONIN), aonde o ministro do Exército, General Leônidas Pires Gonçalves, chegou a propor um parecer onde a reserva para o SOX seria mantida apenas quando o próprio Estado fosse o comprador. Nos demais casos, poder-se-ia adotar livremente o UNIX System V versão 3.1.

Nem a própria estrutural funcional da COBRA parecia ajudar. Havia uma declarada tensão entre o setor de desenvolvimento e o de marketing. Aparentemente fortalecidos pelo clima da PNI, os desenvolvedores não procuravam estabelecer alianças com aqueles que estavam fora dos laboratórios, acreditando que tudo o que fizessem teria amparo na busca de independência tecnológica. Também acumulavam dificuldades com os operários do “chão da fábrica”, que denunciavam privilégios concedidos aos que realizavam o “trabalho abstrato” (flexibilidade no horário e inexistência do “ponto”).

E mesmo dentro dos laboratórios as relações estavam por demais fragmentadas, com cada equipe trabalhando no seu próprio projeto, sem que ninguém conseguisse construir um ponto de passagem obrigatória por onde a pesquisa deveria caminhar. Com laboratórios balcanizados, havia pouca sinergia e o desenvolvimento de tantos projetos passou a ser insustentável para uma empresa do porte da COBRA. Sem o devido desenvolvimento, a qualidade da manutenção piorava, aumentando as reclamações dos usuários finais.

As negociações externas também não iam bem. O Brasil procurava usar, sem muito sucesso, o conceito protecionista de “infant industry” do GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio). Enquanto não conseguiam inserir na Rodada Uruguai o tema dos serviços, os Estados Unidos insistiam em manter o assunto no âmbito das relações bilaterais, enfraquecendo o Brasil.

Por último, e segundo o Secretário Geral do Ministério da Ciência e Tecnologia, Luciano Coutinho, a PNI se ressentia da falta de uma política industrial que suportasse vôos maiores. Ou seja, a rede SOX necessitava ser “suportada” por um emaranhado de outras redes (que Coutinho chama de “política industrial”) e que, no caso brasileiro, ou não existiam ou eram por demais insipientes.

* A rede se desfaz: o SOX não se torna indispensável

Com o passar dos anos, o arco de alianças foi se limitando. Mesmo dentro da Associação Brasileira da Indústria de Computadores e Periféricos (ABICOMP), arregimentadora do Movimento Brasil Informática (MBI), as dissidências já se faziam públicas.

Em 1987 foi aprovada uma Lei do Software, com a manifestação contrária da ABICOMP, que garantia os direitos de autor e a comercialização de produtos importados. Era o primeiro passo.

Em 1988 encerrava-se o desenvolvimento do SOX. Enquanto isso, a Circular 1534 do Banco Central regulou as remessas financeiras para importação de softwares e a Portaria 181 do Ministério da Fazenda definiu o pagamento de direitos autorais para softwares. Entre maio de 88 e agosto de 89, foram feitos 4.475 pedidos de cadastramento de softwares estrangeiros: apenas 58 foram recusados.

A PNI caminhava para o seu final, junto com o governo Sarney. Uma vez eleito Collor, a política passou a ser de total integração com os Estados Unidos no comércio internacional. No mesmo mês, outubro de 1992, foi encerrado o funcionamento da ABICOMP, aprovada uma nova Lei de Informática e oficialmente extinta a reserva de mercado.

Nessa época, a COBRA havia passado para o controle do Banco do Brasil (BB). Seu objetivo focou-se, apenas, no lucro comercial. De desenvolvedora de tecnologia a empresa se tornou prestadora de serviços para o BB e integradora de suas antigas concorrentes.

Da noite para o dia, uma gama de engenheiros e técnicos especializados ficou sem profissão. Foi o caso, por exemplo, dos projetistas de hardware. Os laboratórios mudaram, as qualificações necessárias também (enquanto diminuía o número de pessoas no desenvolvimento, aumentava proporcionalmente no marketing) e uma nova rede de aliados teve que ser construída (Sun, Cisco, IBM, Microsoft, Oracle, Sybase e SCO).

Já o SOX nunca conseguiu se tornar padrão para o mercado. Seu desenvolvimento parou em 1988 e a governo optou por liberar a importação do UNIX System V versão 4.0. Hoje o sistema operacional faz parte, tão somente, de uma história difusionista, contada pelo website da COBRA, mostrando um caminho percorrido “sem interrupções” de 1974 aos dias de hoje. Nessa história, não há quebras, projetos, disputas, redes, aliados. Apenas uma trajetória “retilínea e uniforme”, que nos leva dos Cobra 500s aos processadores RISC da Sun Microsystems.

1 – No plano internacional, o governo Reagan já transpora sua fase inicial de ajustes e decretara, em 1984, o Trade and Tariff Act. Neste mesmo ano, o Brasil aprovara sua Lei de Informática, após extensas negociações. Iniciava-se um longo contencioso contra a PNI, responsabilizada por exagerar no protecionismo, segundo a ótica do Partido Republicano. No caso específico do SOX, este embate teria importância capital: de acordo com o vitorioso, o sistema operacional seria considerado uma simples cópia pirata do UNIX ou o fruto inteligente de “engenharia reversa”.

2 – Este era um dos maiores desafios do SOX: alistar-se simultaneamente em duas redes heterogêneas e, em grande medida, conflitantes entre si: o UNIX e a PNI; constituindo, neste mesmo movimento, a sua própria rede.

3 – Cada um destes exemplos, por si só, já se constitui em extensa rede sóciotécnica, que não passava pelo SOX, deixando-o isolado e sem aliados disponíveis para ser arregimentados. O SOX caminhava velozmente para se tornar ficção.

Bibliografia
DANTAS, Marcos. O crime de Prometeu (como o Brasil obteve a tecnologia da informática). Rio de Janeiro, Associação Brasileira da Indústria de Computadores e Periféricos, 1989.
DANTAS, Vera. Guerrilha tecnológica (a verdadeira história da Política Nacional de Informática). Rio de Janeiro, Livros Técnicos e Científicos Editora LTDA, 1988.
HELENA, Silvia. Rastro de Cobra. Rio de Janeiro, Computadores do Brasil S.A., 1984
VIGEVANI, Tullo. O contencioso Brasil X Estados Unidos da Informática (uma análise sobre formulação de política exterior). São Paulo, Editora Alfa-Omega & EDUSP, 1995.

Entrevistas
COSTA MARQUES, Ivan.
DANTAS, Marcos.
FREIRE, Firmo.