A crise na Ucrânia foi seguida por uma série de artigos, com opiniões contrárias ou favoráveis às forças ocidentais ou à Rússia. Pareceria ser mais um daqueles embates onde um lado está com a razão e o outro não passa de um imperialista. Infelizmente, essa não é a verdade. Na crise da Ucrânia muito provavelmente todos estão errados.

De um lado, Estados Unidos e seus parceiros europeus (Alemanha à frente) sonham em levar a OTAN e a União Européia às fronteiras da Rússia. E, para tanto, não tiveram nenhum pudor em se aliar a forças fascistas e de extrema-direita, dispostas a promover um golpe de Estado. De outro lado, a Rússia alega que a Criméia lhe pertencia até 1954. Agora, não satisfeita em retomar o território das famosas dachas de sua elite, a Rússia alega proteger cidadãos ucranianos de ascendência russa e ameaça tomar parte do leste da Ucrânia, justamente a região com melhor desempenho industrial do país.

O que a Rússia não informa é que a mesma Criméia que lhe pertenceu até 1954 era turca até 1774, foi conquistada como resultado de uma guerra e lá viviam tártaros que terminaram expulsos ou mortos pelos russos (hoje representam pouco mais de 12% da população da Criméia).

Enquanto isso, no Ocidente parece haver divergências entre europeus (receosos de perder investimentos na Rússia e sofrerem boicote no fornecimento de gás) e norte-americanos (cada vez mais dispostos a promover sanções comerciais e financeiras contra a Rússia e se sentindo seguros com o gás de xisto que abunda de seu próprio subsolo).

Para Putin, diante de uma economia que teima em não decolar, cada vez mais dependente das exportações de matérias-prima (como gás e petróleo), a crise na Ucrânia pode ser um importante elemento de coesão do nacionalismo russo. Aliás, não custa lembrar que a Rus de Moscou e a Rus de Kiev estão ambas na origem da atual pátria russa.

Quem escolher um lado para torcer, esperando ver ali algum resquício de justiça, tende a ficar profundamente decepcionado… ou iludido.