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Primavera árabe ou fim do nasserismo degradado?

(Sugestão de leitura) A invenção do povo judeu

1 – Nossa dívida para com a cultura árabe é enorme e muito maior do que a os fundamentalistas cristãos gostariam de reconhecer. Do cheque à jujuba, dos algoritmos ao astrolábio, do então esquecido Aristóteles à medicina de Avicena, as contribuições foram fundamentais para o mundo que conhecemos hoje. Mas, é fato que há séculos os árabes perderam o rumo como civilização, primeiro com a conquista otomana, depois com o colonialismo ocidental.

2 – A realidade contemporânea do mundo árabe, e dos países islâmicos em geral, é muito mais complexa do que revela a grande imprensa, brasileira e internacional. Através desse noticiário rasteiro, como explicar, por exemplo, que árabes líbios sunitas do Fezã tenham profundas diferenças com árabes líbios sunitas da Tripolitânia? Ou que, no Irã, líderes como Ahmadinejad, Musavi e Rafsanjani não apenas tenham posições diferentes entre si como se enfrentem constantemente? Qualquer simplificação no mundo árabe é sinal de que estamos perdendo parte significativa da realidade.

3 – A imensa maioria dos países árabes é governada por ditaduras corruptas e violentas. Em geral, não há liberdade de expressão, vários direitos humanos são violados e, em particular, as mulheres vivem sob constante opressão.

4 – A degeneração do pan-arabismo nasserista em ditaduras antipopulares é uma das maiores tragédias do século XX, comparável ao destino dos governos africanos pós lutas de descolonização.

5 – Se o povo judeu fosse um povo “puro de sangue” e, portanto, herdeiro direto dos antigos hebreus, mesmo assim não faria sentido em reivindicar uma terra onde supostamente os seus antepassados deixaram de viver entre 70 d.c. e, grosso modo, 1947 d.c. Ou seja, segundo o próprio mito de fundação de Israel, os judeus não estiveram por lá durante 1877 anos. O que aconteceria no mundo de hoje se cada povo passasse a demandar direitos sobre terras ocupadas pela ultima vez há 1877 anos? O que aconteceria, por exemplo, com o mapa da Europa? E, obviamente, a demanda do povo judeu não pode ser diferente da demanda de qualquer outro povo.

6 – Mas, o fato se torna ainda mais complexo na medida em que os atuais judeus não são descendentes “puros” dos antigos hebreus. Como todos os povos, em todas as épocas, houve muita miscigenação ao longo dos séculos. A dinastia hasmoneu converteu os habitantes da Iduméia. Os judeus sefarditas obviamente passaram por miscigenação com os povos do magreb, como fenícios e berberes. Assim como os judeus asquenazes se miscigenaram com os povos do leste europeu e com os turcos khazares. Há, inclusive, estudos de judeus nesse sentido, como Shlomo Sand e Arthur Koestler (ambos publicados no Brasil, aliás). E isso não torna os judeus piores. Pelo contrário, todo povo se valoriza com as misturas e a miscigenação. É a mistura que dá um sabor todo especial a cada cultura. E isso vale para brasileiros, judeus e norte-americanos, por exemplo.

7 – Quando um povo conquista um outro, é rara a situação de aniquilamento total. A tendência histórica é um processo de absorção, que pode ser mais ou menos lento. Isso vale para os turcos seljúcidas invadindo a Anatólia assim como a 2° Queda do Templo. Muitos judeus foram para a diáspora, mas muitos permaneceram em suas vilas. Sendo assim, é bem provável que boa parte dos atuais palestinos tenha sangue hebreu.

8 – Por isso, não faz nenhum sentido, sob qualquer aspecto, a reivindicação dos judeus sobre a palestina. E o que se passou já a partir do início do século XX até os dias de hoje foi o simples roubo de terras, que pertenciam à palestinos. Roubo de terras. Não há outro nome aceitável para o que houve e continua havendo.

9 – Mas, também é verdade que os palestinos foram abandonados à própria sorte por vários de seus “irmãos” árabes, como os egípcios e os jordanianos (desse país inventado por ingleses).

10 – O povo palestino que vive hoje nos territórios ocupados se encontra em uma desesperadora e desumana situação de apartheid. O que o Estado de Israel faz deve ser condenado por todos aqueles que acreditam em um mundo justo e livre, independente de quaisquer questões “raciais”.

11 – Abandonados por outros povos árabes, desapontados com a corrupção das tradicionais lideranças do Fatah e massacrados por Israel, não é de se estranhar que o povo palestino tenha aderido (embora não de forma unanime) ao extremismo do Hamas. Cabe destacar que o Hamas hoje possui a mais extensa rede de proteção social dos territórios ocupados, envolvendo hospitais, creches e distribuição de víveres.

12 – O surgimento e a forma como o Hamas atua são perfeitamente compreensíveis a partir da situação palestina. Contudo, isso não significa que suas atitudes são corretas. Pelo contrário, as ações do Hamas devem ser denunciadas por matarem civis judeus e por serem prejudiciais ao próprio povo palestino. O Hamas não faz parte da solução para o povo palestino.

13 – Israel hoje está envolvido no assassinato seletivo de lideranças palestinas que possam ter qualquer papel na construção de um diálogo entre os dois lados, como a morte recente de Al Jabari. A estratégia é promover uma “seleção” entre os palestinos, deixando vivos apenas suas lideranças mais extremistas.

14 – Essa estratégia visa o curto prazo (uma maioria conservadora do Likud nas eleições para o Knesset, que ocorrerão em janeiro de 2013), mas também o longo prazo. No longo prazo Israel busca legitimar perante a opinião pública norte-americana (seu financiador e fiador) um ataque ao Irã assim como busca o lento desaparecimento do povo palestino. No longo prazo, Israel visa a ocupação total de Gaza e da Cisjordânia.

15 – Se nada for feito, aquela região viverá, em algumas décadas, um verdadeiro inferno. Para um povo milenar como os judeus, acostumados a ver impérios nascerem e caírem, não parece ser muito inteligente ter como estratégia, quando se conta apenas 10 milhões de pessoas, provocar até o limite seus 1 bilhão de vizinhos. Até quando os Estados Unidos servirão de fiadores? Pelas próximas décadas, muito provavelmente. Mas, o ódio racial que se está plantando hoje levará gerações para desaparecer. E quando, pelo motivo que for, não houver mais fiadores? A estratégia atual pode garantir a vitória do Likud em janeiro, mas é suicida no longo prazo.

16 – A única solução possível, por mais louca que possa parecer, por mais improvável que seja, é a criação de um único estado laico, onde vivam judeus, palestinos, japoneses naturalizados, ETs infiltrados… enfim, todos aqueles que por lá constituam a sua moradia. Que cada um possa adorar seu deus, ou deus algum, que possa casar no civil, estudar em escolas públicas e laicas (ou, se quiser, em escolas privadas e religiosas), votar e ser votado… Será isso ou o inferno.

17 – Como país opressor, como Estado organizado, como povo não submetido ao apartheid, cabe aos israelenses caminhar nesse sentido. Novamente, parece totalmente improvável que isso venha a ocorrer. Mas, essa é a única saída possível.

PS: já visitei Marrocos, Tunisia, Egito (duas vezes), Jordânia e Turquia. Gostaria muito de um dia conhecer Israel e Irã.