(Se possível, leia antes aqui)

Quando comparada com a situação pré-revolucionária ou com seus vizinhos caribenhos, e diante do covarde bloqueio norte-americano, Cuba é um grande conquista. Por outro lado, quando comparada com aquilo que deveria ser o socialismo, Cuba é uma grande decepção. Diante das classes médias dos países ditos desenvolvidos, seus cidadãos são muito pobres. Mas, dispõem de conquistas que os pobres dos Estados Unidos nem sonham em ter.

Depois de 22 dias viajando pelo país, dormindo apenas em quartos disponíveis para alugar em residências cubanas, foi impossível chegar a um veredicto único. Cuba é um mar de contradições. Alegra o visitante pelas garantias conquistadas pelos mais pobres e entristece aqueles que esperavam encontrar qualquer referência para o debate sobre o socialismo no mundo contemporâneo. Abaixo, a primeira parte dessa relato de paradoxos, vividos em Santiago de Cuba (no extremo sul, a mais africana e caribenha das cidades cubanas), Trinidad (uma jóia colonial), Cienfuegos (cidade aristocrática que nasceu francesa), Playa Giron (paraíso do mergulho e local da invasão norte-americana de 1961), Viñales (pequena cidade rural no norte de Cuba) e a capital Havana.

Cuba é um país que pode afirmar com orgulho que universalizou o acesso à saúde (mesmo nos rincões mais profundos) e à educação. Qualquer cubano que deseje tem garantido o direito de estudar até o doutorado, sem ter que pagar nada por isso.

Também estão universalizados o saneamento básico e a eletrificação. Por mais pobre que seja a casa, ela dispõe de água, esgoto e luz elétrica. Outra coisa importante é que todos têm acesso à moradia, ainda que, em alguns casos, a residência pareça um barraco. Lembro de uma senhora, segurança de um museu, com quem passamos longo tempo conversando, que ficou com os olhos cheios d’água quando soube que, no Brasil (que ela só conhece através das novelas da Globo), há crianças que vivem nas ruas, dormindo embaixo de marquizes, sem acesso à escola. Isso lhe pareceu o auge da barbárie.

Todo cubano tem, também, o acesso gratuito a uma pequena ração mensal, que inclui um quilo de arroz, meia lata de óleo, uma carne meio estranha, açúcar, ovos, pão e um pedaço de sabão. É pouco, mas é de graça.

Praticamente não há violência urbana, sendo possível passear tranquilamente, de madrugada, nas áreas mais pobres das cidades cubanas sem correr qualquer risco de ser assaltado. Talvez pela falta de coisas como TV paga e Internet em casa, as ruas são extremamente movimentadas. É comum ver crianças brincando ou vizinhos com cadeiras na porta de casa, conversando até bem tarde. Em Cuba, tudo parece se resolver nas ruas. O crime organizado não existe e o consumo de drogas ilícitas (exceto a maconha, relativamente fácil de encontrar, apesar do discurso oficial) é raríssimo.

O governo cubano é responsável por um forte investimento em cultura popular, valorizada como um patrimônio nacional, especialmente a música. Há sucursais da União de Escritos e Aristas de Cuba (Uneac) por toda a ilha, “casas de tradição”, Artex (casas de cultura), uma gigantesca quantidade de museus, teatros, uma gravadora estatal que registra a memória musical cubana… Enfim, até para padrões europeus, o estímulo à cultura em Cuba é impressionante.

Até por conta da necessidade de conquistar turistas (ver aqui relato sobre a gentrificação), Cuba tem feito um enorme esforço de restauração de seu patrimônio material, humano e natural. Jóias arquitetônicas como Havana Velha, o casario francês de Cienfuegos e as casas coloniais de Trinidad começam a se levantar de anos de abandono, em um processo lento que ainda vai demorar muito tempo para se concluir.

Talvez por conta da revolução e e da consequente diminuição de poder da Igreja Católica (e de praticamente não haver denominações pentecostais em Cuba), a santeria (o equivalente ao nosso candomblé) é socialmente mais bem aceita do que no Brasil. Nos últimos anos também vem diminuindo a inaceitável repressão que a revolução impôs aos homossexuais e hoje já é possível ver até travestis nas ruas de Havana.

Para minha surpresa, Cuba me parece uma sociedade (ao menos no cotidiano das ruas), muito menos militarizada do que imaginei. Por outro lado, chama a atenção o internacionalismo cubano. O cidadão comum é muito mais bem informado sobre o que ocorre em outros países do que a média dos brasileiros. Nos cinco canais abertos em Cuba, incluindo a venezuelana Telesur, é comum ver mesas de debate com representantes de outros países, como aquele que assistimos com um palestino. Numa quinta-feira a noite, fomos a um baile de rumba, geralmente frequentado apenas por cubanos, e demos com a cara na porta. Fomos informados que não fariam uma festa no dia da morte de Madiba, amigo do povo cubano. Confesso que fiquei impressionado…