Se a democracia não é um mero detalhe, mas algo essencial para a construção do socialismo, Cuba tem sérios problemas com seu partido único e, principalmente, com as Comissões de Defesa da Revolução (CDRs), verdadeiras máquinas de vigilância e repressão, espalhadas por cada bairro do país. Há, também, uma insuportável propaganda no pior estilo estalinista, sempre disposta a enaltecer as conquistas da revolução e dos heróis do povo. Nada é mais simbólico disso do que os “sapatinhos brancos” de uma criança morta na invasão da Baía dos Porcos, expostos até hoje como símbolo da crueldade ianque. Ainda no âmbito da propaganda, Cuba está lotada de elegias ao trabalho e sua natureza redentora e revolucionária.

Como não podia deixar de ser, a lógica do partido único tende a descambar para a criação de uma elite estatal-partidária, que desfruta de vantagens que não estão acessíveis aos demais cidadãos. É comum que parlamentares e altos funcionários do governo façam compras em lojas estatais e mandem debitar na conta do Estado. Mas, o pior exemplo é a Corporação Cimex, uma gigante estatal, dirigida por militares, e que controla trades exportadoras, bancos, lojas de câmbio, navios de carga, agências de turismo e aluguel de carros, condomínios de luxo, prédios comerciais, uma cadeia com mais de 1000 lojas de departamentos, mais de 300 postos de gasolina, fast foods, joalherias, uma construtora e vários outros negócios. A experiência do fim da União Soviética demonstra que os administradores desta corporação ocupam os postos estratégicos que lhes permitirão ser os futuros capitalistas cubanos. O Boris Berezovsky caribenho já existe…

As duas moedas

Quando do fim da URSS, Cuba viveu anos de extrema penúria, hoje chamados de “período especial”. A forma encontrada para superar este momento foi direcionar todos os esforços para atrair turistas, mas havia o medo de que a entrada de moedas estrangeiras expusesse a fragilidade do peso cubano. A saída encontrada foi criar uma moeda apenas para turistas, com câmbio fixo, sempre equivalente a um dólar, chamada “peso conversível” (CUC). O problema é que, passados anos, quase tudo em Cuba se compra apenas com CUCs, mas os salários continuam sendo pagos em pesos. Assim, um professor universitário ou um médico, por exemplo, ganham cerca de 750 pesos (três salários mínimos), mas são obrigados a comprar quase tudo em CUCs. Quando feita a conversão, seus salários valem apenas US$ 30. Assim, o trabalhador cubano que vive somente com pesos enfrenta enorme dificuldade para ter acesso aos produtos de seu cotidiano, de roupa a sabonetes. Não há fome em Cuba, mas os víveres disponíveis em pesos são apenas o essencial.

Já aqueles que vivem do turismo, onde tudo é pago em CUCs, estão se tornando a nova elite cubana. O dono de uma casa com até dois quartos alugados para turistas (o máximo permitido pelo governo) pode faturar até 50 CUCs por dia apenas com a hospedagem. Quase metade desse valor ele terá que entregar ao governo, mas ainda terá a chance de ganhar dinheiro com o frigobar dos quartos, café da manhã, janta e a venda de eventuais pacotes de passeios. Não é difícil que o dono de uma casa fature 700 CUCs por mês ou mais de 20 vezes o salário de um físico nuclear.

O resultado dessa loucura é que Cuba é uma sociedade completamente monetizada. Todos os esforços cotidianos dos cubanos estão direcionados para conseguir CUCs com turistas. Em Havana ou Santiago é praticamente impossível andar cem metros sem ser abordado por alguém que lhe deseja vender rum ou charutos, lhe oferecer um passeio, “negociar” uma simples informação de itinerário ou apenas pedir uma esmola (em CUCs, claro). Ir ao banheiro do restaurante onde se está almoçando lhe custará algumas moedas. No museu, o segurança pode lhe oferecer algo “especial” em troca de CUCs e até no check in da empresa área a atendente “negocia” para liberar um inexistente excesso de peso. Curiosamente, o esforço da política em enaltecer o trabalho acaba sendo desmentido pela economia, pois é muito mais vantajoso conseguir um CUC de esmola por dia do que ser um professor, por exemplo.

Turismo

Tudo em Cuba é voltado para atrair o turista. Zonas especiais (Varadero é a mais famosa) foram construídas para o turista que deseja estar em Cuba, mas se sentir em Miami. Contudo, até o restante do país vem sendo fortemente modificado para atender a demanda por CUCs. A restauração de Havana Velha, por exemplo, substitui o antigo morador pobre por lojas da Bennetton, da Lacoste ou da Adidas. Em cada restaurante é possível ouvir um conjunto que toca “música tradicional cubana”, feita ao gosto do turista estrangeiro. Que tal se sentir um verdeiro cubano, fumando um imenso charuto, vestindo a tradicional guayabera e dançando salsa com uma jovem e solícita nativa? Impossível falar em socialismo com uma economia que vive do turismo e que modifica hábitos e costumes para se tornar palatável ao gosto do estrangeiro e suas moedas!

É chocante chegar numa rodoviária e descobrir que ela se divide em duas. De uma delas, bem mais precária, partem os ônibus para cubanos, caindo aos pedaços, pagos em pesos e com horários totalmente irregulares. De outra, com instalações bem mais confortáveis, partem modernos ônibus interestaduais com ar condicionado, adquiridos na China, em horários pré-definidos e passagens pagas em CUCs. Praticamente não há cubanos nesse segundo tipo de ônibus.

Os médicos

Não há dúvida de que Cuba é uma referência em medicina, especialmente aquela de caráter preventivo. E que os médicos cubanos sentem orgulho de poder levar este tipo de medicina a outros países. Mas, não é apenas esse o motivo de Cuba ter médicos trabalhando em dezenas de países. Estes profissionais trazem recursos para o Estado cubano e, mesmo assim, voltam com muito mais dinheiro do que seria possível conseguir em sua terra natal. Além disso, são tratados como heróis e desfrutam de vantagens que não estão disponíveis para os demais cubanos, como a chance de importar equipamentos eletrônicos modernos e comprar carros.

Comunicação

Em Cuba há somente cinco canais de TV aberta e não existe TV paga (exceto nos resorts para estrangeiros). Alguns cubanos com mais recursos adquirem kits clandestinos para acessarem ilegalmente canais pagos por satélite. O mesmo ocorre com a Internet, que oficialmente só está disponível em lojas do Estado, é cara e lenta (embora eu não tenha visto o uso de qualquer tipo de filtro de conteúdo). Imprensa escrita apenas a oficial.

O forte internacionalismo cubano faz com que seus cidadãos tenham grande interesse em conhecer outros países, mas as viagens ao exterior precisam ser autorizadas pelo governo e seus custos são proibitivos para boa parte dos cubanos.

É velada, como no Brasil, e recriminada pelo discurso oficial, mas é possível perceber claramente uma discriminação contra os moradores do sul de Cuba, especialmente os de Santiago, coincidentemente a cidade mais negra e afro do país. Uma descendência européia é sempre bem vista…

Futuro

Além do turismo e da ajuda de Venezuela e China, a economia cubana praticamente não existe. Mesmo o setor primário tem baixíssima produtividade. Na “melhor” lógica capitalista, o resultado mais nobre de sua economia (açúcar, rum e tabaco) é destinado aos turistas e à exportação. As novas gerações já demonstram demandas consumistas típicas da juventude de países capitalistas, sendo possível, inclusive, encontrar versões piratas das maiores grifes do planeta pelos camelôs de Havana.

No governo de Raúl Castro, Cuba tem passado por uma série de reformas liberalizantes. Agora, já é possível comprar e vender imóveis. Punta Gorda, em Cienfuegos, e Vedado (antigo reduto da máfia norte-americana), em Havana, por exemplo, vão se tornando, aos poucos, áreas nobres, com imóveis caríssimos para os padrões cubanos.

PS: em Cuba há uma gigantesca quantidade de cachorros de rua e ainda existe a famigerada “carrocinha”.