Viajar para Cuba era algo que estava na minha agenda faz tempos. Eu tenho por hábito não criar grandes expectativas sobre os momentos que sei que viverei. Mesmo assim, creio ser necessário esclarecer com quais premissas eu observei a complexa sociedade cubana. Acho que isso ajudará o possível leitor a entender meu local de fala e deixará mais claro o porquê das opiniões que vou expor em posts futuros.

1) O duplo Marx e o Marx esquecido

Minha leitura do marxismo é bem aderente àquela de Robert Kurz e do grupo alemão Krisis. Essa tese defende que a obra de Marx possui uma contradição interna que lhe percorre praticamente toda. De um lado, o Marx que, segundo Kurz, “parece adotar uma perspectiva ontológica do trabalho com a correspondente ética protestante, reivindicar a mais-valia não paga e querer substituir a propriedade privada dos meios de produção pela propriedade estatal”. De outro lado, ainda segundo Kurz, o Marx “descobridor do fetichismo social e crítico radical do trabalho abstrato e respectiva ética repressiva, que caracterizam o moderno sistema produtor de mercadorias”.

2) A escatologia do Marx da luta de classes

Não há dúvida de que o movimento comunista jogou para escanteio o segundo Marx, que faz a crítica à lógica da mercadoria, o Marx da teoria do valor, e ficou única e exclusivamente com o Marx da luta de classes.

3) A escatologia que nunca ocorreu

Ocorre que a escatologia da luta de classes nunca redundou em revolução. A revolução russa (a única que verdadeiramente surgiu como marxista) foi liderada por intelectuais das classes médias, numa Rússia que recém se industrializava. As demais revoluções ao longo do século XX aderiram ao marxismo como quem busca uma ideologia para se legitimar e jamais foram lideradas por proletários. As revoluções latino-americanas, por exemplo, foram todas anti-ianques, assim como as africanas foram de descolonização.

4) Relações capitalistas inter-estatais

Sem questionar a lógica da mercadoria, os Estados ditos comunistas sempre foram Estados capitalistas, quer seja na relação com seus cidadãos quer seja na relação com outros Estados.

5) Cuba: uma revolução anti-ianque

Cuba é uma pequena ilha do Caribe, próxima demais dos Estados Unidos, que lutou para se livrar do domínio espanhol para, ao final do século XIX, cair sob a dominação norte-americana, sendo transformada num cassino e bordel de luxo para a máfia estadunidense. Sua população vivia na miséria, sem acesso à moradia, escola e saúde. Sua revolução foi para se libertar dos Estados Unidos e a própria adesão ao comunismo soviético é posterior a 59 e surge na esteira da tentativa de invasão da Baía dos Porcos e da “lucha contra bandidos”, ambas fomentadas pela CIA. Nesse sentido, não causa estranheza que a propaganda oficial praticamente não recorra à Marx e Lenin, mas a Marti, Maceo e Bolívar, por exemplo.

6) Cuba: uma sociedade “oriental”

Cuba era uma sociedade do tipo “oriental”, na definição de Gramsci, onde a sociedade civil é inexistente ou embrionária. Em sociedades assim, é “mais fácil” chegar ao poder (já que se trata de realmente “tomar” o Estado), mas é muito mais difícil governar, já que não há mediações entre o Estado e o “povo”. O grande risco desse tipo de revolução é o bonapartismo, do qual o castrismo é um exemplar latino perfeito.

7) A dependência soviética

Cuba sofreu, até o fim dos anos 80, de uma forma particular de “doença holandesa”, com a produção de poucas commodities e a total dependência dos aportes soviéticos. Com o fim da URSS era inevitável que surgisse uma gigantesca crise social, como de fato ocorreu nos anos 90, naquilo que hoje é chamado de “período especial”.

8) O embargo norte-americano

O embargo norte-americano é um gesto criminoso e que não visa outra coisa a não ser fortalecer os antigos setores dominantes de Cuba, que hoje constituem um importante eleitorado conservador, especialmente na Flórida.

9) A ajuda venezuelana e chinesa

A superação do “período especial” só foi possível pela enorme injeção de recursos, patrocinada por Venezuela e China. Ou seja, novamente a sociedade cubana vive na dependência do apoio externo.

10) A questão da “democracia”

É perfeitamente compreensível que Cuba tenha apostado na fórmula do partido único e do controle total sobre a imprensa, a partir dos riscos concretos de uma contra-revolução patrocinada pelos Estados Unidos. Mas, a manutenção desse esquema no longo prazo gerou uma supressão da democracia que todo militante de esquerda tem a obrigação de criticar. Para qualquer um de nós, seria insuportável viver no esquema de eterna vigilância patrocinado, no âmbito de cada bairro, pelos Comitês de Defesa da Revolução (CDRs).

11) A classe dirigente do partido único

Dado o que comentei acima (as relações capitalistas não foram suprimidas) e a falta de democracia, era inevitável que surgisse uma burocracia que, ao mesmo tempo, controla o Estado e desfruta de regalias que não estão disponíveis para o restante da população. Em Cuba, uma parte considerável desses privilegiados têm origem nas forças armadas.

12) As conquistas

Em que pesem todas as minhas críticas, é fato que a revolução cubana logrou êxitos impressionantes, especialmente quando a comparamos com a sua situação antes de 1959 e com o estágio atual de vizinhos como Haiti, Jamaica e República Dominicana. Todas as crianças estão nas escolas, todos os cubanos (mesmo aqueles que vivem em regiões remotas) desfrutam de assistência médica de qualidade e gratuita e ninguém morre de fome. Pode parecer pouco para quem é classe média no Brasil, mas para boa parte da humanidade ainda constitui uma realidade distante.

CONCLUSÃO

Foi, então, com essa visão que eu cheguei em Cuba e pode-se dizer que voltei com ela intacta. Do que foi exposto acima, nada mudou. Mas, muitas coisas foram acrescentadas e, principalmente, voltei com muito mais dúvidas do que certezas.