Estudo revela poder e riscos da identificação facial na web



Enquanto gigantes de internet como Facebook Inc. e Google Inc. se apressam para expandir sua habilidade de reconhecimento facial, um novo estudo realizado nos Estados Unidos põe em evidência o poder e os riscos à privacidade representados por essas ferramentas.

Armados com nada mais que uma câmera digital das mais simples, os pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, Estado da Pensilvânia, identificaram com sucesso cerca de um terço das pessoas que testaram, usando uma poderosa tecnologia de reconhecimento facial que foi adquirida recentemente pelo Google.

O professor Alessandro Acquisti, autor do estudo, também constatou, utilizando dados recolhidos a partir de perfis do Facebook das pessoas que ele identificou, que em cerca de 27% das vezes ele podia prever corretamente os cinco primeiros (de um total de nove) dígitos do número de Seguro Social, documento que para os americanos funciona como uma espécie de CPF.

A pesquisa demonstra o poder potencialmente intrusivo da tecnologia de reconhecimento facial, quando combinada com dados pessoais disponíveis ao público. O estudo foi financiado em grande parte pela Fundação Nacional da Ciência, uma agência do governo americano, com somas menores doadas pela Carnegie Mellon e pelo Exército dos EUA.

Paul Ohm, professor de Direito da Universidade de Colorado que leu o artigo científico resultante do estudo de Acquisti, diz que ele demonstra como está ficando cada vez fácil "re-identificar" as pessoas a partir de pequenas informações que supostamente são anônimas. "Este artigo estabelece que a re-identificação é realmente muito mais fácil do que os especialistas esperavam que seria", diz Ohm.

Para o estudo, Acquisti usou uma webcam para tirar fotos de alunos voluntários, e logo usou um software de reconhecimento facial encontrado em lojas de eletrônicos para combinar os rostos dos alunos com fotos disponíveis publicamente no Facebook. "Chamamos isso de democratização da vigilância", disse.

O professor disse que o estudo também mostra como o Facebook, com seus 750 milhões de usuários, cujos nomes, dados pessoais e fotos publicadas no perfil são automaticamente publicados, está se tornando um verdadeiro serviço de verificação de identidade.

Um porta-voz do Facebook disse que os perfis do Facebook nem sempre contêm fotos de rostos de pessoas. Os usuários podem escolher se "publicam uma foto pessoal no perfil, que tipo de foto publicar, e quando querem apagar essa imagem", acrescentou.

O presidente do conselho do Google, Eric Schmidt, falou sobre suas preocupações relacionadas ao Facebook na conferência de tecnologia D: All Things Digital em junho.

O Facebook é "a primeira forma amplamente disponível de identificação que elimina a ambiguidade", disse. "Historicamente na internet, um serviço tão fundamental como esse não seria propriedade de uma única empresa [...] Acredito que a indústria se beneficiaria de uma alternativa a ele."

O Google entrou numa corrida para criar um serviço de redes sociais rival. Em junho, lançou o Google+ para competir com o Facebook. Em julho, adquiriu o Pittsburgh Pattern Recognition, ou PittPatt, cuja tecnologia de reconhecimento facial foi usada no estudo da Carnegie Mellon.

O Facebook lançou seu serviço de reconhecimento facial em todo o mundo em junho. O serviço permite que as pessoas identifiquem automaticamente as fotos de seus amigos. Os usuários que não queiram ser identificados automaticamente em fotos devem alterar suas configurações de privacidade.

Um porta-voz do Google disse que a empresa não lançará a tecnologia de reconhecimento facial "para nossos aplicativos ou como uma função em nossos produtos" sem adotar fortes proteções de privacidade. Na conferência D, Schmidt disse que o Google havia cancelado um serviço de reconhecimento facial para celulares que considerou intrusivo demais.

A corrida para adquirir ferramentas de reconhecimento facial é um reflexo da melhora acentuada da tecnologia nos últimos anos. O número de fotos idênticas que foram incorretamente rejeitadas pela tecnologia de reconhecimento caiu para 0,29% em 2010, comparado com 79% em 1993, de acordo com um estudo realizado pelo Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, uma agência governamental dos EUA.

"Certamente não é mais ficção científica", diz Peter N. Belhumeur, professor de ciência da computação da Universidade Columbia, em Nova York.

Uma grande razão para o avanço é a ampla disponibilidade de fotos que as pessoas publicam na internet através de sites de redes sociais. Nos EUA, antes, as imagens de indivíduos à disposição do público se limitavam principalmente a fotos da carteira de motorista, retratos escolares ou fotos da ficha policial, todas bastante difíceis de obter.

No estudo da Carnegie Mellon, 93 alunos concordaram em ser fotografados com uma webcam conectada a um laptop. As fotos foram imediatamente enviadas a um computador na nuvem e comparadas com um banco de dados de 261.262 fotos disponíveis publicamente, criado a partir de perfis de estudantes da Carnegie Mellon no Facebook.

Em menos de três segundos, o sistema encontrava dez possíveis fotos correspondentes no banco de dados do Facebook. Os alunos confirmaram que sua foto estava entre os primeiros resultados mais de 30% das vezes.

Acquisti diz que a pesquisa "sugere que a identidade de cerca de um terço dos indivíduos andando pelo campus da Carnegie Mellon pode ser conferida em poucos segundos, através da combinação de dados disponíveis nas redes sociais, computação na nuvem e uma webcam de baixo custo."

Ele então tentou ver se poderia prever informações delicadas a partir do perfil do Facebook dos indivíduos que ele havia identificado. Ele explorou o fato de que, a partir de 1987, a Previdência americana começou a emitir números de Social Security que, sem querer, tornavam mais fácil descobri-los com base na data de nascimento da pessoa. Com isso, Acquisti conseguiu prever os cinco primeiro dígitos em 27% das vezes com apenas quatro tentativas. "A cadeia de inferência começa com uma única informação anônima: a face de alguém."