Com rastreamento por celular, privacidade perde mais espaço

Justin Scheck, The Wall Street Journal
11/08/2010

As operadoras de telefonia celular sabem onde os aparelhos de seus clientes estão, normalmente dentro de um raio de menos de 30 metros. Essa tecnologia de rastreamento já salvou motoristas perdidos, ajudou as autoridades a encontrar vítimas de sequestros e permitiu aos pais manter o controle dos filhos.

Mas a tecnologia não é sempre usada como a telefônica quer.

Em uma manhã, há cerca de um ano, Glenn Helwig, de Corpus Christi, no Texas, jogou sua mulher na época no chão do quarto deles, conforme o relato dela à polícia. Ela colocou as malas no seu Hyundai 1995 e dirigiu até a casa de amigos, como contou recentemente. Ela não esperava que ele fosse encontrá-la.

No dia seguinte a sua chegada, diz ela, o marido "de repente apareceu". De acordo com relatos feitos à polícia, ele entrou sem pedir licença e a derrubou no chão, aí tomou o carro dela.

De acordo com o relatório policial, Helwig encontrou a mulher usando um serviço oferecido por sua operadora de celular e que lhe permitiu seguir os movimentos dela por meio do chip de sistema de posicionamento global do telefone dela.

Helwig admitiu ao Wall Street Journal que usou o sistema para acompanhar o movimento de sua esposa em algumas ocasiões. Ele diz que assinou o serviço de rastreamento no ano passado. "A AT&T tinha essa pequena oferta, pela qual você poderia encontrar os membros da sua família através do celular", disse. Mas Helwig afirmou que naquele dia não usou o serviço para achar a esposa. Helwig, que é acusado de agressão e aguarda julgamento, não quis fazer mais comentários sobre o assunto. Ele declarou-se inocente.

As alegações são um lembrete sobre o custo não aparente da proliferação de tecnologias sofisticadas de rastreamento no dia-a-dia: a perda da privicidade.

Os sistemas de posicionamento global, chamados de GPS, e outras tecnologias usadas pelas operadoras de telefonia tornaram mais fácil para os agressores monitorar suas vítimas. Um relatório do ano passado do Departamento de Justiça americano estima que todos os anos mais de 25.000 adultos nos Estados Unidos sejam vítimas de perseguição por meio de GPS, inclusive de celulares.

No mundo on-line, os consumidores que surfam pela internet entregam involuntariamente todo o tipo de informação pessoal a empresas de marketing que usam uma tecnologia invisível de rastreamento para monitorar a atividade on-line. Uma investigação do WSJ nos 50 sites mais populares dos EUA revelou que a maioria deles está instalando tecnologias de rastreamento novas e mais intrusivas nos computadores dos visitantes.

A indústria de celulares afirma que os programas de rastreamento são serviços úteis para as famílias, e a maioria das operadoras toma precauções para evitar abusos. Mike Altschul, diretor jurídico da associação de operadoras de celular CTIA, diz que uma das recomendações de "boa prática" feita às empresas é que o serviço inclua a notificação da pessoa que está sendo rastreada.

A mulher de Helwig tinha recebido a notificação, por mensagem de texto, da AT&T. Um porta-voz da AT&T Inc. diz que notifica todos os usuários de telefones quando funções de rastreamento são ativadas. Mas os usuários não têm o direito de recusar o monitoramento pelo cliente que é dono da conta. O rastreamento é interrompido quando o usuário desliga o celular.

Nos EUA, as empresas de celulares desativam a função de acompanhamento se oficiais de justiça lhes informarem que ela está sendo usada para perseguição. Altschul diz que as autoridades não pediram às operadores para mudar seus programas. Ele complementa que as operadores por muito tempo defenderam programas para dar celulares que não possam ser seguidos às vítimas de violência doméstica.

No Arizona, este ano, Andre Leteve usou o GPS no celular de sua mulher para persegui-la, antes de supostamente matar os dois filhos do casal e atirar em si próprio, de acordo com relatórios da polícia. Robert Jensen, advogado da mãe das crianças, Laurie Leteve, diz que ela não sabia que estava sendo rastreada até ver as contas de celular da família, mais de 30 dias depois do início do monitoramento. Andre Leteve, um corretor imobiliário, deve se recuperar. Ele disse à justiça que não é culpado das acusações de assassinato e aguarda julgamento. O escritório de advocacia que o representa não quis comentar.

Em um suposto homicídio seguido de suicídio no ano passado em Seattle, um mecânico chamado James Harrison teria usado o celular da mulher para segui-la até uma loja. Depois de flagrá-la com um outro homem, ele matou os cinco filhos e a si mesmo a tiros, de acordo com a delegacia de polícia do Condado de Pierce.

Terapeutas que trabalham com vítimas de violêcia doméstica dizem que estão cada vez mais vendo seus clientes serem perseguidos por meio dos telefones. No abrigo de mulheres Next Door Solutions for Battered Women, em San Jose, na Califórnia, a diretora Kathleen Krenek diz que as mulheres frequentemente chegam com a mesma reclamação: "Ele sabe onde eu estou o tempo todo, e eu não consigo entender como ele está me rastreando."

Nesses casos, diz Krenek, o agressor está normalmente rastreando o celular da vítima. A informação é um choque para muitas vítimas de perseguição, diz ela, já que elas acreditam que carregar um telefone celular as deixa mais seguras porque elas podem ligar para pedir ajuda se forem atacadas.

Existem várias tecnologias para monitorar o telefone de uma pessoa e, com o crescimento do número de aparelhos inteligentes, novas opções aparecem frequentmente. Este ano, pesquisadores da iSec Partners, uma firma de segurança cibernética, descreveram em um relatório como uma pessoa pode rastrear o telefone de outra dentro de um raio bastante pequeno. Só é necessário o número de celular da pessoa que é alvo do rastreamento, um computador e algum conhecimento sobre como as redes de celular funcionam, disse o relatório, que tem como objetivo mostrar a vulnerabilidade da segurança.

O resultado, diz o pesquisador da iSec Don Bailey, é que "caras como eu, que não deveriam ter acesso à sua localização, conseguem isso muito, muito baratinho".

A possibilidade de rastrear celulares decorre da ideia de permitir que pessoas em situações de emergência possam ser localizadas. Nos EUA, desde 2005 o governo exige que pelo menos 95% dos celulares sejam rastreáveis.

Um porta-voz da Anatel disse que no Brasil não há regulamentação específica para o rastreamento de celulares, embora ele seja tecnicamente possível.

No ano passado, a polícia de Athol, em Massachusetts, conseguiu, junto com uma operadora de celular, localizar uma menina de 9 anos que supostamente tinha sido sequestrada e levada por sua avó para o Estado de Virgínia. Em dezembro, a polícia de Wickliffe, em Ohio, rastreou e prendeu um homem acusado de ter assaltado uma Pizza Hut a mão armada, seguindo a localização de um celular que ele teria roubado.

Mas com a proliferação dos telefones com GPS, as empresas de tecnologia encontraram outros usos para os dados monitorados. Um software chamado MobileSpy pode "silenciosamente gravar mensagens de texto, localização pelo GPS e detalhes sobre chamadas" em iPhones, BlackBerrys e celulares Android, segundo a empresa que faz o programa, a Retina-X Studios LLC. Por US$ 99,97 por ano, uma pessoa pode instalar o MobileSpy no celular de alguém e identificar onde o telefone está.

Craig Thompson, diretor de operações da Retina-X, diz que o software é feito para permitir que os pais monitorem os filhos e que as empresas mantenham sob controle os celulares que seus fucionários usam. Ele diz que a empresa vendeu 60.000 cópias do MobileSpy. Às vezes, a empresa recebe chamadas de pessoas que reclamam de que estão sendo rastreadas indevidamente, diz ele, mas a empresa não conseguiu verificar nenhuma das reclamações.