Queixas sobre privacidade deixam Facebook em alerta

Jessica E. Vascellaro, The Wall Street Journal
20/05/2010
 

Uma reação contra as políticas de privacidade do Facebook Inc. detonou um debate intenso na empresa, que pode forçar o diretor- presidente, Mark Zuckerberg, a recuar das tentativas de incentivar os usuários a compartilhar mais informações pessoais.

O site de relacionamento social tem sido duramente criticado por uma série de mudanças recentes em suas normas que limitaram as informações que os usuários podem manter em sigilo, bem como constrangedores defeitos técnicos que expuseram dados pessoais.

Defensores da privacidade pediram às autoridades que interviessem. Alguns usuários frustrados, por sua vez, criaram sites que ressaltam o que consideram deficiências nos controles de privacidade do Facebook.

Os problemas causaram nervosismo entre empregados do Facebook e aumentaram a pressão sobre Zuckerberg, que argumenta há anos que seus usuários deveriam compartilhar mais suas informações. No decorrer dos anos, ele ignorou os funcionários do Facebook que argumentavam que o site deveria tornar mais informações ocultas, como regra, segundo pessoas a par da situação. Ele foi favorável em vez disso a ferramentas para que os usuários possam controlar sua informação, disseram.

Os problemas de privacidade estão aumentando enquanto a empresa, que está perto de alcançar 500 milhões de usuários, luta para descobrir como criar um negócio lucrativo em torno dos dados fornecidos por seus usuários sem ofendê-los. A empresa está concentrada em meios de transformar aquela imensa quantidade de dados num negócio publicitário de bilhões de dólares.

Nos últimos dias, executivos e empregados se fecharam na sede do Facebook no Vale do Silício para discutir como combater a reação negativa a dois novos recursos. Um deles incentiva os usuários a informar mais sobre suas atividades online ao Facebook, enquanto o outro personaliza outros sites com informação sobre os amigos no Facebook dos usuários.

Os participantes do debate se perguntam se é necessário criar novos controles que permitam aos usuários ocultar seus perfis mais facilmente, segundo pessoas a par da questão. Ferramentas como essas representariam um grande mudança em relação à atual abordagem do Facebook, que estabeleceu vários controles diferentes para partes específicas dos perfis, e são também uma opção que Zuckerberg tem resistido em aceitar. Na segunda-feira, o rival MySpace informou que simplificaria suas configurações de privacidade ao dar aos usuários a opções de selecionar uma regra para toda a informação em seus perfis. O MySpace pertence à News Corp., assim como o Wall Street Journal.

Pessoas a par da questão dizem que algumas mudanças nos parâmetros de privacidade do site podem ser anunciadas já nesta semana.

Um porta-voz do Facebook disse em comunicado: "Sabemos que somos respeitados por nossa inovação no compartilhamento e queremos ser tão reconhecidos quanto em inovações para controlar isso. E os diálogos internos da empresa refletem isso."

Pessoas a par da questão dizem que executivos da empresa discutiram nas últimas semanas tópicos variados, como a necessidade de mudar as configurações do site, embora a empresa atualmente não tenha planos de fazer isso.

A empresa não tem como ignorar o problema. A Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC, na sigla em inglês) está analisando de perto como os sites de relacionamento social estão usando as informações das pessoas, e pessoas próximas da questão dizem que a agência está se concentrando cada vez mais no Facebook.

"Concordamos que os sites de relacionamento social fornecem um serviço valioso às pessoas, mas também geram preocupações quanto à privacidade", disse um porta-voz da FTC, acrescentando que a agência já abriu vários investigações sobre sites de relacionamento social. O porta-voz do Facebook não quis comentar a investigação da FTC.

Um pequeno exército de programadores decidiu expor os problemas de privacidade no Facebook. Um site chamado YourOpenBook.org vasculha as atualizações dos usuários, que aumentaram desde que o Facebook padronizou a disponibilização desses dados para todos os outros usuários do site, no fim do ano passado.

Qualquer pessoa, até mesmo alguém que não tenha uma conta do Facebook, pode usar a ferramenta para buscar usuários e visualizar fotos e nomes, assim como suas atualizações. A ferramenta usa uma tecnologia que a empresa divulgou para programadores para que terceiros pudessem incorporar conteúdo do Facebook em seus sites.

"As pessoas estão compartilhando coisas que claramente não querem dividir com o resto do planeta", disse Will Moffat, um engenheiro de software de 32 anos que ajudou a criar o site. Ele disse que o criou para pressionar o Facebook a mudar suas configurações de conta de modo que as atualizações sejam como regra privativas.

Um porta-voz do Facebook disse que a empresa quer que as pessoas fiquem informadas sobre suas configurações e realizou "esforços enormes e inéditos" para ajudá-las nisso.

O capítulo mais recente dessa polêmica começou em abril. Numa conferência de programadores, Zuckerberg lançou os recursos, que incluem um botão "Gosto", que outros sites podem instalar para que usuários do Facebook compartilhem a informação nas páginas de seu perfil. Embora o Facebook afirmasse que não ia dividir com os sites qualquer informação pessoal dos usuários, usuários e defensores da privacidade ficaram preocupados quando descobriram que esses dados seriam divulgados.

(Colaborou Thomas Catan)

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