Pesquisadores descobrem o que o celular diz sobre você



A Apple e o Google podem estar aumentando o medo da invasão de privacidade ao monitorar onde e quando as pessoas usam o celular - mas o verdadeiro futuro da vigilância sobre o consumidor ganha contornos dentro dos celulares num velho conjunto de apartamentos em Cambridge, Estado de Massachusetts, nos Estados Unidos.

Há quase dois anos, Alex Pentland, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT, vem monitorando 60 famílias que vivem no campus da instituição. Ele usa sensores e softwares instalados em smartphones - registrando movimentos, relacionamentos, humor, saúde, hábitos ao telefone e gastos do usuário. Nessa montanha de detalhes íntimos, ele está achando padrões de comportamento que podem revelar como milhões de pessoas interagem em casa, no trabalho e nas horas livres.

Com projetos de pesquisa como esses, envolvendo celulares, cientistas são capazes de identificar "influenciadores" - pessoas com maior probabilidade de fazer os outros mudarem de opinião. Os dados podem prever com fantástica precisão o paradeiro de uma pessoa em determinado momento no futuro. Operadoras de celular já usam essas técnicas para prever - com base no círculo de amigos de um cliente - quem é mais propenso a desertar para a concorrência.

Dados dos telefones sugerem que a favela pode ser um catalisador da economia.

Os dados podem revelar sintomas sutis de distúrbios mentais, prever oscilações na bolsa de valores e traçar a propagação de ideias políticas por uma comunidade à semelhança de um vírus, mostra o estudo.

No MIT, cientistas que monitoraram os celulares dos alunos nas últimas eleições presidenciais americanas conseguiram deduzir que duas pessoas estavam falando de política, mesmo sem saber o conteúdo da conversa. Ao analisar mudanças em padrões de circulação e comunicação, pesquisadores também puderam detectar sintomas de gripe antes que o próprio estudante percebesse que estava adoecendo.

"O celular pode dizer muito", diz Pentland, diretor do Laboratório de Dinâmica Humana do MIT e um dos pioneiros nessa área de estudo. "Dá para ter uma visão satelital do comportamento humano."

Até aqui, esses estudos apenas arranham a superfície da complexidade humana. Pesquisadores já estão tratando de descobrir como a informação obtida com celulares pode trazer melhoramentos em áreas como saúde pública, planejamento urbano e marketing. Ao mesmo tempo, esses pesquisadores acreditam que suas descobertas dão pistas sobre regras básicas da interação humana, o que impõe novos desafios a noções de privacidade.

Hoje, quase 75% da população do planeta tem telefone celular. O uso do aparelho gera imensos bancos de dados comerciais, que revelam como nos organizamos em redes de poder, dinheiro, amor e confiança. Esses padrões também permitem que a ciência extrapole aquilo que nos diferencia e enxergue formas de comportamento comuns a todos.

Como ferramenta de pesquisa em campo, o celular é único. Diferentemente da linha fixa convencional, o celular em geral é usado por uma única pessoa e vai com ela a toda parte, o dia todo. Uma operadora está sempre rastreando a localização de um aparelho (em parte para conectá-lo à torre de celular mais próxima). Sabe, ainda, a hora e a duração de chamadas, além do endereço de cobrança do usuário.

É comum, ainda, o aparelho manter um registro de chamadas, de mensagens enviadas e recebidas, de buscas efetuadas e da atividade na internet. Muitos smartphones também vêm com sensores para registrar deslocamentos, detectar a proximidade de gente com celular, detectar níveis de luz e tirar fotos ou fazer vídeos. Em geral, têm também uma bússola, um giroscópio e um acelerômetro para captar rotação e direção.

Avanços em estatística, na psicologia e na ciência de redes sociais estão munindo estudiosos com ferramentas para identificar padrões de dinâmica humana demasiado sutis para serem detectados por outros meios. Na Universidade Northeastern, em Boston, EUA, um grupo de cientistas descobriu o quanto as pessoas podiam ser previsíveis estudando a rotina de deslocamento de cem mil usuários de celular na Europa.

Após a análise de mais de 16 milhões de registros de data, hora e posição de chamadas, os pesquisadores concluíram que, juntos, os deslocamentos das pessoas pareciam seguir um padrão matemático. Os cientistas disseram que, com suficiente informação sobre deslocamentos passados, daria para prever o paradeiro de alguém no futuro com 93,6% de chance de acerto.

O padrão se mantinha ainda que a pessoa estivesse sempre perto de casa ou se deslocasse muito - e não era afetado pela idade ou sexo do usuário.

"Para nós, as pessoas são como pequenas partículas que se movem no espaço e que, aqui e ali, se comunicam com outras", diz Albert-Laszlo Barabasi, o físico da Northeastern que chefiou o experimento. "Transformamos a sociedade num laboratório no qual o comportamento pode ser observado de modo objetivo."

Só recentemente os acadêmicos tiveram a oportunidade de estudar dados comerciais do uso de celulares. Antes, a maioria das operadoras via pouco valor em esmiuçar os dados que tinham para decifrar relações sociais, dizem pesquisadores. Agora, isso está mudando - embora leis de privacidade imponham limites à divulgação desses dados.

Várias operadoras de celular da Europa e da África doaram grandes blocos de registros de ligações para uso em pesquisas, apagando nomes de usuários e dados pessoais.

Semana passada, a Apple Inc. fez soar os alarmes da defesa da privacidade com a notícia de que o iPhone guarda automaticamente um registro de meses da localização do aparelho. Na sexta-feira, o Wall Street Journal noticiou que a Apple e a Google Inc. (fabricante do sistema operacional Android) vão além: recolhem para seus servidores a informação sobre a localização dos smartphones. Um teste de um celular com o sistema Android mostrou que o aparelho registrava a localização a cada poucos segundos e transmitia a informação de volta ao Google várias vezes por hora.

Google e Apple informaram que dados transmitidos por seus aparelhos não identificam o usuário, que se quiser pode desativar o recurso de localização.

"Podemos quantificar o deslocamento humano numa escala antes impossível", diz Nathan Eagle, pesquisador do Instituto Santa Fe, no Estado americano de Novo México, que trabalha com 220 operadoras de celular em 80 países. "Acho que ninguém entende de verdade todas as ramificações." O maior conjunto de dados de uma pesquisa dele reúne 500 milhões de pessoas na América Latina, na África e na Europa.

Eagle usou os dados, entre outras coisas, para mostrar como uma favela pode ser um catalisador da vitalidade econômica de uma cidade. Uma favela, em suma, traz mais oportunidades para a atividade empreendedora do que se pensava. A favela é "um trampolim econômico", diz.

Operadoras de celular estão explorando abertamente outras possibilidades. Ao esmiuçar registros de chamadas em busca de relações sociais entre clientes, várias operadoras europeias descobriram que um usuário tinha cinco vezes mais chance de trocar de operadora se um amigo já o tivesse feito, diz Eagle, que trabalha com as empresas. Hoje, as operadoras direcionam uma publicidade especial para gente cujos amigos cancelaram o serviço.

Com mais gente entrando na internet pelo celular, o universo digital de detalhes pessoais canalizados por esses aparelhos cresce rapidamente - e o mesmo pode ser dito do modo como pesquisadores usam essa informação para avaliar o comportamento. Bollen e seus colegas, por exemplo, descobriram que mensagens de Twitter enviadas aos milhões pelo celular e pelo computador diariamente captam oscilações no humor americano que prenunciavam movimentos na Média Industrial Dow Jones com até seis dias de antecedência e precisão de 87,6%.

Foi analisado o conteúdo emocional de palavras usadas em 9,7 milhões de tweets postados por 2,7 milhões de usuários entre março e dezembro de 2008. Aonde o Twitter vai, a bolsa vai atrás, descobriram os cientistas.

"Não é só observar o que está acontecendo; é influenciar o que está acontecendo", diz Bollen. "Com esses padrões, estamos aprendendo a manipular melhor tendências, opiniões e a psicologia de massa."

Certos cientistas estão criando aplicativos para o Android e o iPhone - aplicativos que distribuem de graça para coletar dados pessoais. O economista ambiental George MacKerron, da Faculdade de Economia de Londres, recrutou 40.000 voluntários com um aplicativo de iPhone que projetou - o Mappiness - para medir emoções no Reino Unido.

Em momentos aleatórios do dia, o aplicativo pede que o usuário descreva seu estado de espírito, o que está fazendo e onde está. O aparelho transmite automaticamente as coordenadas de GPS do usuário e níveis de ruído nas proximidades com o uso do microfone do celular. E pede autorização para fotografar o local.

Até o começo de abril, voluntários tinham apresentado mais de 2 milhões de informes de humor e 200.000 fotografias.

MacKerron usa esses dados de forma pública para traçar o nível de felicidade de Londres e outras cidades britânicas em seu site, hora a hora. Segundo seus cálculos, o momento mais feliz do Reino Unido é às 20h do sábado; o dia mais triste é a terça-feira.

No experimento do MIT com celulares, a intenção é mergulhar fundo - o máximo possível - no dia a dia das pessoas. Pentland muniu os voluntários de um smartphone Android equipado com um software que automaticamente registra suas atividades e a proximidade com outras pessoas. Além disso, os participantes fizeram boletins sobre dados pessoais como estado de saúde, peso, hábitos alimentares, opiniões, compras e outras informações, para que os pesquisadores pudessem casar os dados do celular com relacionamentos e comportamentos.

O trabalho atual é uma extensão de experimentos anteriores, iniciados em 2004. Feitos num alojamento do MIT, buscavam saber como relacionamentos influenciavam o comportamento, a saúde, hábitos alimentares e opiniões políticas. Pentland e os colegas usaram smartphones equipados com um software especial e sensores para monitorar a interação cara a cara entre 78 universitários no alojamento nos últimos três meses da corrida presidencial de 2008 nos EUA.

A cada seis minutos, o aparelho de cada universitário checava se havia outro celular num raio de três metros (um jeito de identificar o contato em pessoa). Entre outras coisas, cada telefone também informava a localização e dava uma síntese de ligações e mensagens de texto efetuadas a cada 20 minutos (tudo em caráter anônimo). Ao todo, foram registradas 320.000 horas de dados sobre o comportamento e relacionamentos de estudantes - dados sustentados por sondagens detalhadas.

"Só de ver como seu tempo é gasto, posso dizer muito sobre o tipo de música de que gosta, o carro que dirige, seu risco financeiro, seu risco de ter diabetes. Se acrescentar dados financeiros, a visão é ainda maior", diz Pentland. "Estamos tentando entender moléculas de comportamento de um jeito realmente abrangente."