Com teste no Brasil, técnica de rastreamento on-line ressurge

Steve Stecklow e Paul Sonne | The Wall Street Journal
25/11/2010

Uma das tecnologias potencialmente mais intrusivas para se montar o perfil de usuários da internet e direcionar publicidade para eles está prestes a voltar, depois que protestos de defensores da privacidade nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha pareciam tê-la matado.

A tecnologia, conhecida como "inspeção profunda de pacotes", é capaz de ler e analisar os "pacotes" de dados que viajam pela internet. Ela pode ser ainda mais poderosa do que os "cookies" e outras técnicas normalmente usadas para rastrear pessoas on-line porque pode ser usada para monitorar todas as atividades on-line, não apenas a navegação na web. Agências de espionagem utilizam a tecnologia para vigilância.

Agora, duas empresas americanas, a Kindsight Inc. e a Phorm Inc., estão lançando serviços com a inspeção de pacotes como uma forma de os provedores de internet reivindicarem uma fatia do lucrativo mercado de publicidade on-line.

A Kindsight e a Phorm afirmam que protegem a privacidade das pessoas com medidas como a obtenção de autorização delas. As empresas também afirmam que não usam todo o poder da tecnologia, e se abstêm de checar outras atividades on-line como o e-mail.

Mesmo assim, o uso da inspeção profunda de pacotes desta maneira dá aos anunciantes a capacidade de exibir publicidades às pessoas baseadas em perfis extremamente detalhados das atividades delas na internet. Para persuadir usuários da internet a optar por terem seus perfis montados pelo programa, a Kindsight oferecerá um serviço de proteção grátis, enquanto a Phorm promete conteúdo de internet sob encomenda, como notícias sob medida para os interesses do usuário. As duas empresas dividiriam a receita dos anúncios com os provedores de internet.

A Kindsight afirma que a sua tecnologia é sensível o suficiente para detectar se uma determinada pessoa está on-line a trabalho ou a lazer, e exibir anúncios direcionados para cada uma das situações.

"Se você quer um serviço de vigilância na internet para uma única compra, a inspeção profunda de pacote seria uma excelente ferramenta", diz David C. Vladeck, diretor do Escritório de Proteção ao Consumidor da Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC). Quando a inspeção de pacotes é usada para direcionar anúncios, a FTC deixou claro que os provedores de banda larga "devem, pelo menos, notificar os consumidores que estão obtendo a informação e conseguir a autorização expressa deles", diz Vladeck.

A Kindsight, controlada pela fabricante francesa de equipamentos de telecomunicação Alcatel-Lucent SA, diz que seis provedores nos Estados Unidos, Canadá e Europa testaram o serviço de segurança este ano, embora ainda não estejam enviando os anúncios direcionados. A empresa não informou o nome dos clientes.

"Esta é a primeira leva de provedores com que estamos trabalhando", diz Mike Gassewitz, presidente executivo da Kindsight. Ele diz que a empresa também tem colocado anúncios em vários sites para testar a tecnologia e construir uma base de anunciantes, que agora está em torno de 100.000.

Duas grandes provedoras no Brasil - a Oi e a Telefónica SA - têm atualmente contratos com a Phorm. A Oi, maior provedora de banda larga do país, com cerca de 4,5 milhões de clientes, lançou o produto inicialmente com cerca de 10.000 pessoas no Rio.

"Queremos crescer isso", diz Pedro Ripper, diretor de estratégia e tecnologia da Oi.

Um porta-voz da Telefônica diz que a empresa está testando o serviço em cerca de 1.000 usuários de banda larga e avaliará os resultados antes de decidir se vai usá-lo. "O usuário tem a chance de habilitar ou desabilitar o serviço a qualquer momento", declarou a empresa.

A Phorm espera introduzir o serviço na Coreia do Sul e depois nos EUA. "Ele foi desenhado desde a base para garantir a privacidade", diz Kent Ertugrul, diretor-presidente da Phorm.

A Kindsight e a Phorm afirmam que os provedores de internet não fornecem as identidades verdadeiras dos assinantes. Ambas também informam que não coletam qualquer informação pessoal, não lêem e-mail, não armazenam o histórico de navegação dos usuários nem monitoram sites de informação delicada como os de saúde. Os assinantes devem dar seu consentimento para participar, afirmam as empresas.

Os sistemas da Kindsight e da Phorm estudam o comportamento e os interesses das pessoas com base nos sites que elas visitam para então mostrar anúncios relevantes. Gassewitz diz que, ao contrário de métodos de rastreamento baseados na web, que geralmente criam um perfil comportamental único não importa quantas pessoas compartilhem um computador, a Kindsight pode "gerar múltiplos perfis por pessoa".

"Se eu estou on-line e no modo de trabalho, vou aparecer com um perfil diferente de quando estou on-line num sábado de manhã e em modo de lazer", diz. O tipo de anúncio estaria de acordo.

Gassewitz chama isso de "o molho secreto" da Kindsight. Este ano, a empresa registrou uma patente para a sua tecnologia de "diferenciação de perfil".

Uma nova fonte de receita seria uma mudança bem-vinda para os provedores. As empresas estão sob pressão para oferecer conexões cada vez mais rápidas e a preços mais baixos, enquanto o Google Inc. e outras empresas têm faturado bilhões de dólares com a venda de anúncios. A publicidade baseada no interesse ou comportamento das pessoas geralmente consegue valores mais altos.

Esta não é a primeira vez que os provedores de internet tentam isso. Há dois anos, provedores dos EUA e do Reino Unido assinaram acordos com empresas que ofereciam serviços de inspeção profunda de pacotes e um pedaço da receita com os anúncios.

Os acordos acabaram depois de protestos sobre privacidade. No Reino Unido, houve confusão depois que a BT Group PLC admitiu que havia testado a tecnologia da Phorm em alguns assinantes sem informá-los. No ano passado, a BT e outros dois provedores que instalaram os serviços da Phorm - Virgin Media Inc. e Talk Talk - o abandonaram.

Nos EUA, a controvérsia começou em 2008 diante das práticas de uma empresa chamada NebuAd Inc., que planejou usar a inspeção de pacotes para enviar anúncios dirigidos a milhões de assinantes de banda larga sem que eles tivessem optado explicitamente pelo serviço. Numa audiência no Congresso, Bob Dykes, o fundador da empresa, foi questionado sobre sua política. A NebuAd interrompeu o negócio no ano passado; vários provedores americanos que assinaram acordos com a NebuAd foram processados sob a acusação de "instalar dispositivos de espionagem" nas suas redes.

Em entrevista ao Wall Street Journal, Dykes disse: "Se tivesse que fazer isso de novo, teria pensado em como arquitetar um modelo que pedisse permissão."

As empresas que agora estão oferecendo anúncios baseados na inspeção de pacotes acreditam que aprenderam como fazer o serviço aceitável para os defensores da privacidade e usuários de internet. Isto inclui pedir permissão antes e oferecer às pessoas incentivos para receberem os anúncios, como o programa de proteção grátis da Kindsight, que inclui proteção contra roubo de identidade. Os clientes podem pagar uma tarifa mensal para não receber anúncios.

No Brasil, a Phorm está enfatizando o conteúdo personalizado em sites parceiros se as pessoas concordarem em optar pelo serviço. Por exemplo, usuários que visitam um site de esportes podem ver textos sobre seus times favoritos (recolhidos a partir da análise de seus hábitos de navegação), o que lhes daria uma experiência on-line diferente da de outras pessoas.

Ripper, da Oi, diz que mais da metade dos assinantes que receberam a proposta no lançamento inicial do serviço optaram por usá-lo. "Ficamos muito felizes com isso", diz. Ele afirma que dois auditores externos verificaram as configurações de proteção de privacidade da Phorm.

Até 2007, a Phorm era conhecida como 121Media Inc. Ela enviava anúncios direcionados, particularmente pop-ups, para usuários que baixavam softwares gratuitos. Os anúncios eram "baseados em uma análise anônima do comportamento da navegação, que provavelmente indica os seus interesses comerciais e de estilo de vida", de acordo com informes da empresa.

Várias empresas de segurança na internet, como a Symantec Corp., consideraram parte do sistema de publicidade da 121Media como "spyware". O Centro de Proteção a Malware da Microsoft o considerou "troiano", ou um software malicioso disfarçado de algo útil.

Ao enfrentar "uma combinação de percepção pública e legal e desafios tecnológicos", a 121Media informou que mudaria o seu foco em 2005 do negócio de publicidade no computador para os provedores de internet.

A empresa acabou por encerrar o negócio de publicidade e se rebatizou Phorm.

Para conquistar usuários de internet para os seus serviços, a Kindsight - que nasceu como um projeto na Alcatel-Lucent, onde Gassewitz trabalhava como diretor de planejamento estratégico - planeja oferecer o que é descrito como um "serviço de segurança grátis, sempre ligado, sempre atualizado".

Gassewitz diz que seis provedores testaram o serviço de segurança da Kindsight em grupos de até 200.000 assinantes. "Não houve identificação de perfis, envio de publicidade e nem coleta de dados", diz.

Ripper, da Oi, acredita que a era da tecnologia chegou. "A internet está se tornando cada vez mais uma plataforma para entrega de messagens muito direcionadas", diz. Quanto à inspeção de pacotes, "todo mundo vai chegar lá. É apenas uma questão de timing".